'em minúsculas', de Herberto Helder, ainda não chegou à ilha do poeta

Susana de Figueiredo

Obra que reúne crónicas e reportagens assinadas pelo autor madeirense, repórter em Luanda, entre 1971 e 1972, foi lançada hoje, mas só deverá chegar às livrarias da Madeira na próxima semana.

Discretamente e sem cerimónia de lançamento, chegou hoje às livrarias portuguesas a obra da Porto Editora ‘em minúsculas’, que revela uma dimensão menos conhecida do poeta madeirense Herberto Helder (1930-2015): a de repórter em Luanda, Angola, em plena guerra, entre 1971 e 1972, território onde, por muito pouco, não perdeu a vida num acidente de viação. Raros são os que conhecem este perfil do poeta, que ganha corpo no livro, e é, ao mesmo tempo, uma sua “faceta menos obscura”, palavras do filho, Daniel Oliveira, autor do prefácio, que, em conjunto com as investigadoras Diana Pimentel e Raquel Gonçalves (Universidade da Madeira), procedeu à recolha e edição de crónicas e reportagens escritas pelo pai, durante aquele período, e então publicadas no angolano Notícia – Semanário Ilustrado. Recorde-se que, recentemente, no podcast ‘A Beleza das Pequenas Coisas’ (Expresso), Daniel lê uma destas crónicas e recorda o pai: “Apesar de eu ligar menos a dinheiro do que a maioria das pessoas. Não consegui ser completamente despegado do dinheiro.

Como [era] o meu pai. [Que o fazia] por liberdade.” ‘em minúsculas’, escreve-se e inscreve-se um outro mundo – um outro corpo – , ambos tangentes, quiçá intersetados, do homem que esteve sempre acima do [nosso] mundo. Que viu de cima, mas [sempre] por dentro de todas as feridas, que cravou o rosto e as mãos na terra e perfurou o vapor do céu, que viu coisas nunca antes vistas por outros. Que foi livre para ser outros sem jamais se perder de si próprio [“Se eu quisesse enlouquecia”]. Embrenhou-se na fundação de “uma língua nova”, no “poema contínuo”, à volta do “estilo” de “palavras fundamentais”: “Morte, Doença, Medo, Amor…” [in ‘Os Passos em Volta’], até ao derradeiro dos dias. E o fim, fim, não se escreve. Neste ‘em minúsculas’, corre ainda o sangue novo e antigo de Herberto, decalque de uma veia em derivação, uma espécie de claridade que, na sua densa poesia, é, talvez, uma fresta. E o “corrosivo” humor isento de azedume, como descreve Daniel Oliveira no prefácio. Os textos, que, muitas vezes, assinava sob o pseudónimo Luís Bernardes

Obra resulta de um intenso trabalho de investigação, recolha e edição de textos, realizado por Daniel Oliveira, filho do escritor, e pelas investigadoras Diana Pimentel e Raquel Gonçalves.

“As razões do profundíssimo desinteresse que tinha pela imprensa estão venenosamente descritas em «Maiúsculas e Minúsculas», texto a que fui buscar o título deste livro. Daniel Oliveira

(ou respetivas iniciais), “correspondem a pouco mais de um ano de colaboração com o Notícia – entre abril de 1971 e junho de 1972 – (…) Vários artigos e reportagens foram originalmente acompanhados por fotografias de Eduardo Guimarães (a quem Herberto dedica um dos textos), Eduardo Baião, Joaquim Cabral, António Cruz, António Capela, Fernando Filho e, no caso de ‘As ruínas da casa de Almada’, Troufa Real (…)”, lê-se na nota editorial, na qual se vinca que o livro não reúne “a totalidade das suas colaborações”, embora “todos os textos” ali coligidos tenham sido publicados no semanário, onde Herberto Helder trabalhou ao lado de outros eminentes nomes da literatura, como António Gonçalves, Eduardo Guimarães, Fernando Farinha, Ventura Martins, Fernando Dacosta, Luiz Pacheco, Natália Correia, Carlos Porto, Agostinho da Silva, Alexandre O’Neill, Lauro António e José Manuel Rodrigues, refere a mesma nota editorial. Nas páginas de ‘em minúsculas’, de novo, tudo emerge em superlativo, numa narrativa herbertiana que, além de traduzir a inquestionável genialidade da sua escrita, nos oferece um olhar tremendamente crítico sobre as sociedades angolana e portuguesa.

HERBERTO PELOS OLHOS DO FILHO, DANIEL OLIVEIRA

Ao longo de todo o prefácio, o filho de Herberto Helder, Daniel Oliveira, comentador e cronista, colaborador do Expresso, nascido da relação do poeta com Isabel Figueiredo, vai discorrendo sobre cada nervo e músculo de ‘em minúsculas’. A profunda admiração pelo pai surge à tona de cada palavra, num discurso que nos permite intuir o porquê da luz feita sobre estes textos. “Nem tinha dois anos quando o meu pai, cultor do amor mas não da família quotidiana, partiu para África, a quem ele julgava pertencer o futuro. Com estes textos, que sabia escritos mas nunca lera, aproximei-me desse tempo da sua vida,

quando ele quase a ia perdendo. Neles reconheço o homem que se mantinha longe do que é mundano para conseguir estar perto do que é do mundo. E o seu humor, o seu humor.” De resto, afirma, “este livro não permite apenas conhecer uma faceta menos obscura, e por isso menos comum, em Herberto Helder. Permite acompanhar a sua curta mas marcante experiência africana.” Da compilação fazem parte, por exemplo, a “espécie de entrevista a Carlos do Carmo, um jogo do gato e do rato em que o entrevistador se dá sempre como derrotado, à atualíssima crónica sobre turistas ou ao passeio que foi dar a um Sporting-Benfica (nem tudo aqui se passa em Angola) (...)” Textos que, para Daniel, também foram uma revelação, pois, embora sempre tenha “ouvido falar” deles, só pôde, “finalmente”, lê-los aquando desta incursão pela viagem do pai.