Obra sobre Severa realça vida da fadista como resultado de “paisagem de exclusão”

LUSA

A vida da fadista Severa (1820-1846) resulta de uma “paisagem de exclusão”, numa época marcada pela guerra civil, mas que hoje continua hoje presente, defende o antropólogo Paulo Lima, coordenador do livro “Severa 1820”.

"A construção estética e memorialista [sobre Severa] é tão forte, que aproximarmo-nos desta mulher é hoje um difícil caminho”, defende o investigador, que não resume a fadista à imagem dominante de amante do conde de Vimioso.

“Severa 1820”, publicado pela Tradisom, é apresentado a 01 de outubro, às 19:00, no Museu do Fado, em Lisboa, e é uma edição comemorativa do duplo centenário do nascimento de Maria Severa Onofriana, e dos 10 anos da inscrição do Fado na Lista do Património Cultural Imaterial da UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (2011-2021).

Conjuntamente são editados dois CD com as canções que constituem a banda sonora do primeiro filme sonoro português, “A Severa” (1931), de Leitão de Barros, e ainda outras canções que “recuperam ou se inspiram na obra ou na figura da mítica ‘fadista’”.

O primeiro CD, “A Severa”, diz respeito à banda sonora original, e inclui duas músicas que, embora não façam parte dela, a ela estão associadas.

O segundo CD, “Outras vozes”, edita um conjunto de gravações, realizadas entre 1906 e 1956, “onde o 'tópos' [tema recorrente, dominante] associado a esta ‘fadista’ está presente”.

Ambos os CD têm como base os discos originais da coleção Tradisom e foram digitalizados por Gustavo Almeida para a esta edição. Estes sons fazem também parte de coleções públicas e, no CD “A Severa”, há notas que remetem para a audição do Arquivo Sonoro Digital, um projeto do Museu do Fado.

Paulo Lima, no CD “Outras Vozes”, destaca um “Fado da Severa”, interpretado por Avelino Baptista, que, segundo o antropólogo, “chama mais do qualquer outra faixa nesta edição a nossa atenção. É uma canção de rua que ouvimos, o velho texto que nos traz a morte de Maria [Severa] e o acorrer de Vimioso [o 13.º conde, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro (1817-1865)], talvez ainda de finais de 1840. Não importa se é fado. É uma canção de cegos. No filme de Leitão de Barros, há uma cena, na Mouraria (ou na Bemposta), na qual Severa dá, de uma varanda, moedas a um grupo de tocadores de rua. A Chica começa a cantar. O seu amante Diogo bateu-lhe. É a Canção da Chica. Eles acompanham-na. A construção e posição das figuras remete-nos para as gravuras do século XIX. São três. O tocador central, de grande chapeirão, toca uma viola. Atrás uma rabeca e outra viola. E de repente toda a imagem é o tocador. Um cego”.

A fama da Severa deve-se, em muito, ao dramaturgo Júlio Dantas (1876-1962), autor da peça “A Severa” (1901), ampliada, anos mais tarde, pelo filme de Leitão de Barros, protagonizado por Dina Tereza, como protagonista, que tinha sido já encarnado, no palco, por outras atrizes como Ângela Pinto e Estela Alves, tendo posteriormente voltado a cativar artistas como Palmira Bastos, Amália Rodrigues e Lena Coelho.

Referindo-se a “Severa 1820”, o coordenador, Paulo Lima, afirma que “é, porventura, o primeiro esforço que permite, em extensão, começar a entender quem foi Maria Severa e o seu contexto biográfico, assim como as mil formas com que se foi construindo enquanto tipo até chegar a nós e, na constelação do fado, ser hoje também ‘património da humanidade’”.

A obra constrói, "pela primeira vez, o mapa genealógico de Maria Severa Onofriana", levantando-se "origens africanas por linha materna", e aponta a Rua das Barracas, aos Anjos, em Lisboa, como o local de nascimento de Severa, que viveu também na Mouraria e na Madragoa, onde a mãe, Gertrudes, teve uma taberna.

“A partir de agora deixa de ser apenas a ‘fadista’ amante de Vimioso. Aos nossos olhos vai emergir a filha de um casal em fuga devido a uma invasão, expulsos pela guerra e pela fome dos lugares onde habitavam e trabalhavam, e que a miséria, sofrida pelos mais pobres durante a guerra civil oitocentista [1832-1834], leva, por volta dos 12 anos, à marginalidade consentida e à prostituição. A sua cidade será a cidade permitida”, argumenta o coordenador.

“Os seus olhos de fogo continuam, infelizmente, presentes. Encontrámo-los em outros corpos com que nos cruzámos nos muitos bairros que dentro da cidade, ou que a prendem num anel de fogo, são uma paisagem de exclusão”, enfatiza Paulo Lima.

Esta foi uma obra pensada e construída durante a pandemia de covid-19, que adiou a sua apresentação, projetada para 2020, quando se completavam 200 anos sobre o nascimento de Severa, e tem uma edição limitada de mil exemplares.

“Severa, 1820” conta com a participação de vários historiadores e investigadores. Além de Paulo Lima e do editor José Moças, cite-se Maria Alexandre Lousada Maria, José Pais, António Janeiro, Maria Alice Samara, que contextualiza a época, Manuel Deniz, Jorge Sampaio, ex-diretor do Mosteiro de Alcobaça, que traça uma ligação entre a fadista e os lenços de Alcobaça, Pedro Felix, do Arquivo Nacional do Som, Salwa El-Shawan Castel-Branco, que escreve sobre “A institucionalização da moderna etnomusicologia em Portugal e o estudo do fado”, e Rui Vieira Nery, que faz uma análise desde o “mito fundador da Severa à consagração pela UNESCO” do fado como património imaterial da humanidade, e ainda fotografias de Augusto Brázio.

A socióloga Graça Fonseca, ex-ministra da Cultura, numa nota de apresentação, afirma que “há figuras singulares que marcam o seu tempo e deixam uma marca indelével no imaginário coletivo e na memória de um lugar, de um bairro, de uma cidade, de um país”, como é Maria Severa Onofriana, mulher “de personalidade forte e ‘voz plangente e sonora’ (como a recordaria o escritor e político Luís Augusto Palmeirim), [que] espraiou o seu vincado talento e carisma pelos recantos de Lisboa, e ninguém ficaria indiferente à postura impetuosa e afetuosa de uma mulher simples que cantava, tocava e dançava fados como respiração maior dos dias”.

Graça Fonseca acrescenta que “muitos escreveram sobre ela, se inspiraram nela, se inebriaram pelo seu breve mas intenso percurso, especularam sobre ela, tornando-a numa das figuras mais mitificadas da cultura portuguesa – da qual nos faltava, porém, um conhecimento mais rigoroso e aprofundado sobre a sua biografia e seus múltiplos ecos contemporâneos”, que este livro pretende preencher.

A obra, como refere Paulo Lima, divide-se, fundamentalmente em quatro partes: na primeira, há "uma aproximação histórica e contextualizante ao tempo em que viveu a família de Maria Severa"; a segunda é "sobre a estetização da figura da Severa, construída a partir da obra de Júlio Danaas; a terceira é sobre a indústria criadora da estética que hoje julgamos ter sido a Severa" e a quarta é sobre a evolução dos estudos sobre música popular", em que ressalta o contributo da etnomusicóloga Salwa Castel-Branco.

O atual vereador da Cultura da Câmara lisboeta, Diogo Moura, afirma nesta obra que, “na paisagem urbana da Lisboa oitocentista, a cartografia do percurso de Maria Severa [apresentado na obra], transporta-nos por uma geografia afetiva da cidade, sugestiva de atmosferas e vislumbres, de luzes e sombras, dos ritmos e sonoridades de um canto pleno de memória e de futuro. E percebemos que, em pleno século XXI, a Lisboa de Maria Severa é uma cidade viva e humana, que recusa o estereótipo e o bilhete-postal. Uma cidade antiga e moderna, diurna e noturna, poética e real onde, no Fado e no seu claro-escuro, ontem como hoje, reencontramos a poderosa imanência dos grandes temas da nossa cultura, num inventário ilimitado de sentimentos”.