Educação e interdisciplinaridade

Quando em 1972, em circunstancias muito peculiares, me vi a braços com uma escola que não existia fisicamente, com uma equipa de jovens professores, sem formação específica e com um conjunto vasto de alunos, reflecti profundamente sobre o que era a escola, o que era a educação e quais eram os seus desajustes com a vida. E conclui que a educação devia ser um despertar para a vida e a vida devia-nos despertar para a música, para a literatura, para a arte, para a ciência, e sobretudo para o homem e para o universo.

A educação deveria abrir portas, janelas e fronteiras para a relações do homem com os outros homens e do homem com a natureza e com o universo.

Num mundo onde os convívios estão tão inquinados, onde as desigualdades são cada vez mais acentuadas, não só do ponto de vista social mas também cultural e cientifico, é preciso que a educação desempenhe um papel primordial para o combate a estes desequilíbrios. Hoje a educação não incorpora nem discute esta realidade da vida e dos homens, ignora a diversidade dos problemas complexos da vida.

Uma escola tem o dever de incorporar e mostrar aos seus alunos os valores, de forma a que os mesmos sejam adquiridos o mais precocemente possível. É necessário que a criança/aluno se saiba entender a si mesma para que compreenda os outros, a humanidade e o universo.

A escola e o sistema educativo não aludem, nem refectem estas questões. As disciplinas estão estruturadas de forma compartimentada e isolam os objectos do saber. A arrumação e a organização do sistema curricular está só aparentemente organizada, é uma falsa arrumação.

Em 1972, na Ribeira Brava, (uma escola ainda por conhecer), as carências e as dificuldades mostraram-nos que havia outras formas de organizar as disciplinas e naturalmente nasceu uma acção interdisciplinar, porque fomos obrigados a organizarmo-nos em moldes diversos daquilo que era o instituído.

A relação entre os diversos saberes e as diversas disciplinas mostram que se pode observar o homem, a natureza e o universo de forma global, de maneira a que a vida, as artes, a literatura, a ciência, a filosofia e a história sejam parte de um todo, onde a guerra, a paz, a justiça, a injustiça e os diversos desvios sociais e culturais tenham de ser entendidos e combatidos com os saberes adquiridos.

Voltando ao principio, verifica-se que o aluno descobre na pluralidade da aprendizagem que temos uma matriz genética, social e cultural, somos socialmente pertencentes a uma família, temos uma genética psicológica, um perfil próprio, um carácter e uma personalidade. Pertencemos a uma sociedade, a uma geografia, a um país e temos uma historia pessoal e colectiva.

Somos nós próprios, uma máquina complexa e aliciante, constituída por células vivas que são formadas por moléculas, por átomos e que tudo provem de há milhões de anos nesse universo que há para descobrir e conhecer.

É nesta busca que se deve ensinar a aprender quem somos, de onde vimos e para onde queremos ir. Desta forma viva fazemos a escola. O sistema vigente mata a escola.

​Na idade etária do ensino secundário surgem aos alunos, muitos interesses novos, que levam a um alargamento da curiosidade e das experiências pessoais. A escola, ocupando os alunos de forma pouco motivadora, e muitos professores tornando a literatura, a poesia, as artes e as ciências aborrecidas, sujeitando os alunos a análises pouco interessantes, a minuciosos vocabulários e regras gramaticais, a equações e fórmulas fixas, fazem com que se perca o encanto e o fascínio de um poema, a paixão de um romance ou dos conteúdos maravilhosos da ciência e do mundo.

Algumas das grandes obras literárias são também um retrato da problemática realidade, a escola deverá e terá de ser um laboratório para ensaiar o gosto literário, filosófico, artístico, musical e científico, é assim que se desenvolverá o conhecimento de si e dos outros. As artes e a literatura deveriam ocupar um espaço mais vasto e intenso no sistema educativo. A partir de uma obra como Os Lusíadas, por exemplo, podemos criar uma ponte com a história, com a geografia, com as ciências, com a antropologia, do mesmo modo que a partir da Guernica de Picasso podemos reflectir sobre os horrores da guerra e da violência. Todas as grandes obras de literatura e de arte retratam uma dimensão histórica, social, filosófica, e todos os seus componentes proporcionam-nos conhecimentos e novos saberes. Há na nossa cultura, no nosso país, grandes vultos que podem servir de âncora a estes projectos, sem esquecermos os clássicos universais.

O professor deve entender que a sua disciplina, em articulação com outras disciplinas, o enriquece e enriquece a forma de ensinar os alunos. Deste modo, colocando as disciplinas a interagir, a aprendizagem será obviamente mais rica e mais profícua e o professor deverá tender a ser menos especializado. Um professor de artes deve saber um pouco de história, de física, de matemática e de literatura, enquanto que os outros professores deverão saber um pouco de artes e das disciplinas que compõem o vasto plano curricular. Dessa maneira interdisciplinar, todos contribuirão para uma aprendizagem mais global, mais participada e mais activa.

É preciso atenuar o fosso entre as humanidades e as ciências, um estreitamento entre elas irá contribuir para o nascimento de uma cultura nova, e essa deverá estar na base da formação e actualização dos professores. A criação de uma postura de diálogo no ensino, vai fazer-nos entender melhor os nossos alunos e vai ensiná-los a entender melhor a escola e a vida.

Claro que o que aqui se esboça é uma mudança que não se opera de uma só vez. Não pode um Ministro ou um Governo revolucionar o ensino de um dia para o outro, esta mudança tem de surgir gradualmente, por vontade dos próprios professores, quando derem conta que a sociedade, a vida e o homem pertencem a uma natureza e a um Universo em mudança. A escola é a vida, a vida no seu ciclo social, cultural e ambiental, a escola terá de ser global, tendo o homem no centro do universo, algo tão sublime e tão evidente, mas que parece não ser observável.