A Medicina das Artes Performativas

A Medicina das Artes Performativas é uma especialidade médica, relativamente nova, cuja formação e exercício existe, apenas, em países como os Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. O objetivo principal é promover a saúde dos músicos, bailarinos, profissionais da voz (cantores, atores, locutores, apresentadores) e de todos os demais envolvidos nas artes do espetáculo.

​Tal como os atletas, os profissionais das artes do espetáculo podem apresentar problemas de saúde específicos, desenvolvidos no decorrer das suas funções. Há quem considere os músicos como “atletas de alta competição de pequenos músculos” executando movimento contínuos, repetitivos, muitas vezes, extenuantes. A título de exemplo, músicos e dançarinos estão em risco de desenvolver lesões musculoesqueléticas. A nível psicológico, todos os artistas podem, potencialmente, desenvolver ansiedade de desempenho, resultante de um elevado grau de perfeccionismo. Estudos realizados na Alemanha, nos anos 80, mostraram que os músicos tinham dificuldade em encontrar médicos familiarizados e empáticos com as suas lesões e perturbações específicas. Devido à falta de confiança nos médicos, os músicos tendiam a consultar mais as medicinas alternativas. Daqueles que procuravam avaliação e diagnóstico médico convencional, cerca de 68% não seguiam as recomendações e tratamentos prescritos.

Dada esta realidade e necessidade de zelar pelo bem-estar dos profissionais das artes performativas, verificou-se, a partir da década de 80, um número crescente de conferências médicas especializadas nesta temática, e a criação de sociedades de medicina das artes em diversos países. Também em Portugal houve uma vontade e um esforço para criar o que já existia noutras nações. Assim, em 2007, no Porto, nascia a Associação Portuguesa de Medicina e Artes do Espetáculo (APMAE). Para além da promoção da saúde dos profissionais desta área, existia a preocupação de promover investigação na área e a disseminação dos resultados. Esta associação sem fins lucrativos, organizou quatro jornadas, de acesso gratuito, entre os anos de 2008 e 2010 e o 1º Curso Nacional de Saúde e Bem-Estar para os Músicos (em novembro de 2008). Alguns dos tópicos debatidos por diferentes especialistas foram: prevenção e reabilitação vocal; corpo em movimento e problemas associados; controlo da ansiedade em músicos, atores e bailarinos; lesões nos membros superiores em músicos; e implicações do ruído na saúde auditiva. Os fundadores da associação (alguns deles médicos) acalentavam o sonho de implantar e implementar a subespecialidade médica de medicina das artes performativas, tal como existe a medicina desportiva, mas tal desejo nunca se concretizou.

É, pois, necessária a consciencialização da sociedade de que os profissionais das artes performativas merecem ter uma equipa de especialistas preparada para lidar com as suas necessidades particulares. Estes também merecem usufruir dos serviços das equipas de Saúde Ocupacional, disponíveis, segundo a legislação em vigor, para qualquer atividade profissional remunerada. Apesar da maioria das doenças profissionais dos artistas não acarretarem risco de vida, algumas podem acabar com, ou comprometer, as suas carreiras profissionais por incapacidade funcional. JM

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