O resto virá, jogo a jogo!

Os últimos resultados ditam a necessidade de algumas mudanças. Recuperar os jogadores-chave da equipa e aproveitar o mês de Janeiro para eventualmente conseguir obter do mercado mais-valias.

O treinador do Marítimo, Daniel Ramos, à entrada da segunda volta do campeonato, fez questão de afastar qualquer candidatura da sua equipa às competições europeias, dizendo, e cito: «O Marítimo tem um plantel para atingir a manutenção. Ponto final. Neste momento, não tem plantel para atingir as competições europeias. Ponto final. O Marítimo vai lutar pelo melhor, que é conseguir a manutenção o mais rápido possível e a melhor classificação possível».

Confesso que estas palavras não me caíram bem. Não que eu não possa concordar com elas, no sentido de que há equipas bem mais apetrechadas para a luta pela qualificação europeia, mas porque vai contra tudo aquilo que eu acredito, que já tive oportunidade de publicar manifestar e, inclusive, vai contra aquilo que o próprio Daniel Ramos conseguiu na época passada. Se a bola é redonda para todos e a baliza é rectangular para todos, eu acredito que é o mais organizado e não o melhor que estará mais habilitado a alcançar os seus objectivos.

À partida desta temporada muitos poucos realmente acreditariam que a equipa poderia voltar a repetir à época anterior, chegando a uma qualificação para a Liga Europa. Porque perdeu jogadores importantes e porque os reforços que haviam chegado eram desconhecidos ou relativamente desconhecidos. Mas também porque há menos um lugar com acesso às competições europeias face à queda de Portugal no ranking da UEFA, com todas as implicações que isto representa numa época desportiva.

Mas a verdade é que, mais uma vez, no final da primeira volta, e perante todos os constrangimentos e condicionalismos, a equipa encontra-se no tal quinto lugar da tabela. Se apanhar o Braga é uma miragem, é um facto que ainda assim esta equipa tem conseguido ombrear com Rio Ave, Guimarães e afins, crónicos candidatos, se calhar hoje mais que o Marítimo, na luta para apanhar os arsenalistas, assim como tem conseguido posicionar-se muito acima de emblemas que verdadeiramente lutam pela manutenção.

É certo que o início de 2018 não tem sido famoso para o Marítimo. A derrota com o Chaves, que fez terminou um reinado invicto em casa desde Setembro de 2016, e sobretudo a sova em Alvalade, puserem a nu as debilidades da equipa mas, sobretudo, deram margem para alguma crítica subir de tom. De um Marítimo que não dá 3 toques seguidos na bola; que é pontapé para a frente; que faz poucos golos; que joga feio; é defensivo; não é atractivo. Chegamos ao cúmulo de ouvir que há uma série de equipas na primeira Liga que jogam muito mais que o Marítimo e que “mereciam” estar no nosso lugar. E, claro, tudo acaba na qualidade do plantel. Ou na falta dela. E na exigência de melhores jogadores para melhores resultados.

E é por isso que não compreendo as palavras do Daniel Ramos. A equipa está numa fase negativa. Indiscutivelmente. Fustigada por lesões e quebra de rendimento de alguns jogadores. Mas também é verdade que passou um ciclo onde teve de jogar no Dragão e em Alvalade, com o Chaves pelo meio (que ainda esta sexta-feira faz um jogo fantástico frente ao Vitória de Guimarães). Se aceito que a equipa não seja candidata a um lugar europeu (por aquilo que atrás escrevi), não aceito que este plantel seja qualificado como “para atingir a manutenção”! E então e o Boavista, o Feirense, o Setúbal, o Moreirense, o Paços, é tudo de qualidade superior ao Marítimo? A AD Oliveirense também? O Cova da Piedade também?

A vida faz-se de resultados. Mas estes só aparecem com trabalho de qualidade. E tem havido. Daí os resultados. Com mérito absoluto do Daniel Ramos. Mas se estes jogadores não tivessem a capacidade de interpretar o que o treinador lhes pede e a qualidade suficiente para por em campo essas instruções, nunca teria o Marítimo feito o que fez sob o seu comando.

Os últimos resultados ditam a necessidade de algumas mudanças. Recuperar os jogadores-chave da equipa e aproveitar o mês de Janeiro para eventualmente conseguir obter do mercado mais-valias que permitam manter a bitola da equipa. Mas também pede-se ao Daniel Ramos que abra os horizontes à equipa: há outro tipo de jogadores no plantel que permitem recurso a outras estratégias, bem como jovens da B a justificar uma chamada. Refugiar-se só no objectivo “manutenção” não me parece que seja o melhor caminho para, pelo menos, manter a ambição nos jogadores. E, porque não, do seu treinador. O resto... o resto virá, jogo a jogo. JM