A tua rua é a minha casa

É um dia de semana como outro qualquer. Os ponteiros do relógio da Sé marcam 23:30 horas. As ruas do Funchal encontram-se quase desertas no momento em que uma carrinha estaciona numa paralela da catedral.

“Quanto ficou o Benfica?”, pergunta um dos cinco voluntários que saem da carrinha. “1-1”, responde outro, enquanto retira três refeições, embaladas em cuvetes de plástico, do porta-bagagens do automóvel.

Ao longe, entre cobertores e cartões que improvisam uma cama, uma cabeça ergue-se. Nas imediações do largo Gil Eanes, Joana, ao aperceber-se da chegada dos elementos do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA), levanta-se lentamente e senta-se numa das escadas do edifício que escolheu para passar esta noite.

Os voluntários aproximam-se de Joana, que se encontra entre os sacos e mochilas que carregam a sua vida, e de mais um corpo coberto com um fino lençol para deixar uma refeição e um sumo. “Já não estava à espera desta comidinha hoje”, revela uma expressão agradecida de quem faz da rua a sua casa. Com o romper do silêncio, Pedro mostra agora a sua face. Ainda atordoado pela interrupção do sono, agradece também.

A conversa alonga-se por mais alguns minutos. Trocam-se sorrisos e palavras de esperança. Fala-se da chuva e do sol, mas ali a palavra-chave é ‘ouvir’. Ouvir, sobretudo, as preocupações de quem está na rua. A tremer, Pedro responde de forma afirmativa quando um dos voluntários lhe pergunta se quer que lhe tragam um cobertor. Momentos depois é tempo de ir, tempo de apoiar outra pessoa; é tempo de continuar a ouvir.

Seguem caminho e, já noutro ponto da cidade, José abranda com a carrinha: “Então Rosa? Precisas de alguma coisa? Já comeste?”. Do outro lado da rua: “Sim. Já. Obrigada, querido. Estou bem.” “Ok então. Bom trabalho e cuida-te.”

A ronda, distribuição das refeições nas ruas do Funchal, por parte dos elementos do CASA demora, mais ao menos, sessenta minutos. Não há local ou hora marcados para o encontro com os sem-abrigo pelo que a distribuição das refeições faz-se, muitas vezes, baseadas no instinto. Antes, na sede da associação, no autossilo do Campo da Barca, outros voluntários servem dezenas de refeições a outros sem-abrigo e a famílias carenciadas. A rotina é a mesma, 365 dias por ano.

A associação tem cerca de 120 voluntários, distribuídos por quinze equipas. Todos os dias, um dos grupos sai da sede a caminho de dois hotéis do grupo Porto Bay. Nas unidades hoteleiras acondicionam toda a comida, entre entradas e sobremesas, que depois é levada, novamente, para a sala no autossilo do Campo da Barca. Lá, num ambiente familiar, servem-se as refeições a quem mais precisa. Ali, também, o mais importante é ouvir, partilhar problemas e tentar encontrar soluções.

Tanto na associação como na rua, conhecem-se todos pelo nome, numa familiaridade que não é comum existir. Não desta forma. Não naquelas condições. Não numa região que, pela terceira vez consecutiva, foi eleita como Melhor Destino Insular do Mundo. Não numa zona do país considerada como uma das mais desenvolvidas da Europa. Num “paraíso dourado” como este, tanta miséria não deveria existir. Somos golden com muita pobreza que já nem é escondida. Está na rua. Só não a vê quem não quer.

Por ano, o CASA serve cerca de 78 mil refeições, entre o Funchal e Santa Cruz, a outra cidade em que a associação tem um pólo de acção em apoio de famílias carenciadas. Por definição, os sem-abrigo enfrentam uma esperança de vida reduzida, problemas graves de saúde, discriminação, isolamento e barreiras no acesso aos serviços públicos. Que não se pense que é um problema exclusivo de uma região. Por toda a Europa aumentou o número de pessoas que vivem nas ruas, muito por força das consequências da crise que marcou quase todos os países da União.

O perfil dos sem-abrigo europeus é agora muito diferente. Temos muitos jovens nas ruas, crianças, migrantes, mulheres e as suas famílias, pessoas de etnia cigana e minorias desfavorecidas. Se já era manifesta a necessidade de um combate sério à pobreza e à exclusão social, agora é ainda mais urgente. São os filhos da geração que há-de vir que estão em risco. Também significa que precisamos que as regiões e os municípios, em conjunto com as universidades e as ONG, façam uma coisa simples: um levantamento de dados quantitativos e qualitativos de forma a monitorizar os que vivem na rua. Quantos são? Porque estão na rua? Quem são? Soluções?

São estas e outras questões que ninguém sabe responder por toda a União Europeia. Mas uma coisa é certa, as soluções passam por investimento e para isso temos, em todas as regiões europeias, financiamento disponível para esta luta, seja através do Fundo Social Europeu, do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional ou do Fundo de Auxílio Europeu às Pessoas mais Carenciadas. Este último visa prestar assistência material às pessoas mais necessitadas. Disponibiliza 3.8 mil milhões de euros até 2020 e as entidades nacionais e regionais ficam obrigadas a prestarem assistência através de organizações, associações e ONG.

O objectivo, num primeiro momento, é garantir a satisfação das necessidades básicas procurando trilhar a reinserção social. Provavelmente esta será a mais exemplar meta de quem governa: a assistência não material que se faz a um cidadão pelo direito a ser reconhecido, de existir e de ser integrado. Este segundo momento, a reinserção social, passa pela formação e emprego, ou seja, pelo uso de um apoio fundamental que é o Fundo Social Europeu.

E cai uma pergunta no prato: temos sido capazes de coordenar estes projectos? Temos acompanhado o agravar deste problema? Vale a pena ler o estudo sobre Mobilidade, Migração e Destituição na União Europeia, da autoria da Regioplan Policy Research. De uma maneira ou de outra há cidadãos a dormir nas ruas por toda a Europa. Podia ser qualquer um de nós. Cidadãos que nos agradecem uma refeição e que os deixemos ter um sítio para dormirem. “A tua rua é a minha casa”.

72 sem-abrigo morreram no ano passado em Bruxelas, a “capital da Europa”. Em Portugal, em 2015, existiam 1.511 sem-abrigo, 2% com formação universitária. Em Lisboa, por exemplo, no ano passado, os números apontavam para a existência de 400 sem-abrigo. Só no Funchal, segundo dados de um periódico local, existem cerca de 40 sem-abrigo. Rosa, Pedro e Joana são apenas três deles.

Ao partir a voz de Joana faz eco no silêncio da noite: “Obrigada, meus queridos, continuem sempre assim, com o mesmo sorriso e força de vontade”. Obrigada a ti, Joana, pelo teu sorriso.

*Todos os nomes utilizados no texto são fictícios. As pessoas são reais. JM