YouTubices

Uma semana como deve ser não pode passar sem a indignação da praxe nas redes sociais.

Estas tendem a ser mais combustíveis que a floresta portuguesa, incendiando-se até que as vítimas sejam irremediavelmente imoladas, numa pira de estupidez e intolerância.

Há alguns dias, a radialista, apresentadora de televisão e blogger Ana Galvão, também conhecida por ser ex-companheira de Nuno Markl, publicou na sua página de Facebook um longo texto, no qual se insurgia contra “uma legião de jovens YouTubers que estão a ensinar barbaridades aos nossos filhos”.

​Mais referia que “… há, de facto, um grupo de YouTubers, que gravam vídeos sem parar, que têm fãs aos molhos, e que, todos os dias, apresentam ao mundo conteúdo falado em mau português, cheio de palavrões, obscenidades, apelo a insultar os pais, e ainda, desafios para as crianças serem rebeldes na escola”, rematando com “há uma pandilha de tipos (chamados de influenciadores) que dizem as maiores das barbaridades, de fazer ruborizar o mais bravo dos adultos, e ninguém parece importar-se. Não entendo. O que está a falhar?”.

​O que falhou foi medir as consequências do desabafo. Num ápice, começaram a chover elogios e críticas, que foram subindo de tom na mesma proporção com que baixaram de nível.

Numa das trincheiras, centenas de defensores de Ana Galvão, maioritariamente adultos. Do outro lado, centenas de revoltados fãs dos YouTubers, na sua maior parte pré-adolescentes.

Chegados a este ponto, imagino que muitos leitores já estarão a afiar a faca, antecipando as bordoadas que, imaginam, irei assestar no lombo desses “net-demónios”.

Pois enganam-se. Estou com eles nesta “luta”.

Nos dias seguintes, as notícias relatavam o lamento de Anão Galvão, atordoada pela onda de insultos que atingiu a sua página. Ora, do que fui acompanhando, também tive oportunidade de ler respostas educadas e bem argumentadas, redigidas por jovens seguidores da “classe” atingida. Tal como li invectivas disparatadas, condescendentes e injuriosas, escrevinhadas por cyberbullies, trolls e haters maiores e vacinados (mas não contra a estupidez, seja da natural ou da adquirida).

O cerne da questão, mais uma vez, não está naquilo que os miúdos seguem na internet, mas sim na educação que lhes foi transmitida, nos valores que lhes foram inculcados e na capacidade em discernirem o bom do mau e o essencial do acessório. Tudo devidamente enquadrado por regras, na altura certa.

Este velho “drama” é réplica do que sucedeu com os videojogos, e antes disso com a própria televisão. Os conteúdos impróprios, a excessiva violência e a linguagem explícita a que me expus voluntariamente na adolescência, nos milhares de filmes que “devorei” em formato VHS, não fizeram de mim um adulto com tendências homicidas ou um tarado sexual (quer dizer, às vezes até… mas isso agora não interessa).

Condenar os YouTubers é uma forma de desresponsabilização e de transferência da culpa. Por falar neles, dos muitos que tenho seguido, na companhia do meu filho adolescente, há-os para todos os gostos: bons, maus e vilões. Alguns carregam conteúdos execráveis, outros têm qualidade e um notório esforço de produção. Quem queira tirar a dúvida experimente pesquisar pelo nome Tiagosvki. Goste-se ou não do estilo, alguém terá dúvidas de que é uma pessoa de bem, que tenta respeitar e incutir bons princípios aos seus seguidores?

​(Nota: tem uma série de vídeos gravados na Madeira que são uma excelente e sincera promoção do destino).

Ah, já me esquecia, o meu filho não diz palavrões em casa, nunca teve problemas disciplinares na escola e é um excelente aluno. Deve ser dos YouTubers…