O “doutor da mula ruça”

A expressão remonta à Évora do século XVI, onde um tipo que se deslocava numa mula parda, exercia medicina sem ter o grau de doutor, porque apesar de ter estudado em Espanha, não teve dinheiro para pagar o diploma.

Acabou por receber uma equivalência por carta régia de D. João III. Para além deste significado, de alguém que tem conhecimentos mas não tem o canudo, o “doutor da mula ruça” também pode designar o charlatão, o que se faz passar pelo que não é e os que embora tendo um título ou diploma, não percebem nada do que estão a fazer. Vem isto a propósito de Portugal ser um país de doutores e engenheiros, muitos deles da mula ruça e nunca, como agora, houve tantos exemplos.

Quem faz uma licenciatura tem direito ao uso da designação de Dr. antecedendo o seu nome de baptismo. Mas esta distinta nomeação, mais do que a representação de uma formação técnica ou especialização, passou a ser uma qualidade, um estatuto, per se, que engrandece, enobrece e distancia das demais almas que não a têm. Alimentando esta provinciana esquizofrenia social e cultural, o Estado foi criando Drs. para todos os gostos, ao que sei cerca de 500 as doutorices criadas por decreto, algumas cujo objecto científico se desconhece devam ter ou não o nível de licenciatura, embora atribuam o título e o estatuto. E é ver o Dr. nos livros de cheques, nos cartões bancários, nas nomeações, até na necrologia para que o de cujus (o defunto) não vá indiferenciado para o além e tenha o São Pedro ou o diabo à porta para lhe indicar o seu lugar eterno no cantão dos Drs. E toda a gente quer ser Dr. e a vida não é a mesma coisa sem o Dr. Já imaginaram o prazer de ouvir: “oh Sr. Dr.”. Não é música celestial ao ouvido? Não é um consolo para a alma e para o ego? Quanto orgulho, quanta elevação. Certamente já ouviram, num sítio qualquer, alguém apresentar-se como o Dr. tal ou a corrigir: “senhor não, Dr. tal, faz favor”. E esta glória volátil gera a versão rancorosa do não Dr., o que queria sê-lo e não é e a forma subserviente, que se deslumbra com o Dr. e em cada frase usa, de forma reverencial e cansativa, o Sr. Dr.

Admiro pessoas inteligentes, competentes e cumpridoras dos seus deveres, sejam ou não Drs. e a experiência demonstra que a licenciatura, muitas vezes, não acrescenta nada a estes atributos e só por si não dá cultura, mundividência, sabedoria, carácter ou princípios éticos. Há Drs. que só conhecem o que estudaram e cuja estatura intelectual ou cultural é idêntica à do homem da rua, cujos interesses não vão além de coisas de apreensão básica, como o futebol, os copos ou os clichés e espartilhos da escola partidária que perfilham. É o bronco com estatuto de doutor ou o vilão com estudos. Em contrapartida, há não Drs., e gente iletrada, que nos arrebatam em diálogo profundo, construtivo e com sentido crítico sobre o mundo e a vida.

No meio de tudo isto, floresce o “doutor da mula ruça”, aquele que, como no Brasil, envergando um fato e gravata e um dinheirito no bolso, é um doutor, sem nunca ter pisado pé numa faculdade. São os que, normalmente exibem um Dr. na conta bancária, chegando, alguns, a simular ser Dr. para ocupar certos cargos em gabinetes ministeriais, como temos vindo a saber pelos jornais. E com prejuízo para o país, há os “doutores da mula ruça” que, tendo um diploma, estão alcandorados no tal estatuto de Dr. e nessa posição nada fazem ou nada sabem fazer, mas por força de maquinações partidárias, de alcova e outras que tais, estão investidos numa qualquer função remunerada, sem qualquer préstimo social ou produtivo. E é vê-los, bastas vezes, empoleirados em funções de mando, numa clara desafinação entre o que fazem e as suas capacidades e conhecimentos, a lembrar o adágio “quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?”. Reza a história que, quanto mais inútil é o “doutor da mula ruça” estatuto, mais alta é a sua arrogância e mais requintada a inconsciência da sua real importância.

Enquanto isto, há muitos dos nossos melhores jovens Drs. a emigrar. Lamento a quem se lhe enfiar o carapuço ou a mula ruça.