Quem vier depois que resolva

Já todos sabem que as escolhas populares nem sempre são acertadas. 

Há razões individuais que decidem o voto, muitas vezes em contradição com o interesse colectivo das comunidades respectivas. O que parece ser bom para o senso comum pode não interessar ao cidadão, aos seus problemas, aos seus interesses e às suas expectativas individuais. Só assim se compreende a eleição de Trump, de Chaves e de Maduro, só assim se compreende o Brexit e a Catalunha, entre tantos outros produtos enviesados da democracia. Para isso o discurso político é cada vez mais populista. Cada vez mais, o eleitor abdica do politicamente correto para abraçar experiências alternativas de desfecho imprevisível mas que deixam a esperança no cidadão revoltado de que algo de novo vai acontecer. Ou que pelo menos, na sua revolta, com o seu voto, ele vai atingir os interesses dos ditos “beneficiados do regime”. E há cada vez mais políticos dispostos a cavalgar esta tendência.

Daí que se fale muito da política para as pessoas, isto é, para o interesse individual de cada um. Daí a política orçamental do governo da república que mete mais algumas moedas no bolso dos portugueses, deixando para segundo plano as reformas estruturais que asseguram o futuro do país. Mais uns euros de IRS a devolver em ano de eleições. Mais uns euros de ordenado ou de pensão e já ninguém fala do brutal nível de impostos que continuamos a pagar. Nem todos pagam e por isso o silêncio, a aceitação.

Também vai sendo assim a nível local. Pode não ser o melhor projeto colectivo a merecer a simpatia da maioria. Depois de resolvidos os grandes problemas estruturais da freguesia e do concelho, longe do tempo da falta de água potável, da escassez de energia, da ausência de estradas, centros de saúde, escolas e outros equipamentos públicos. Depois de muita liberdade, libertinagem e democracia, o cidadão já não é um eleitor apenas interessado no bem comum. O seu interesse é mais imediatista. Mais do fórum privado.

Os políticos locais perceberam isso e alguns até promovem a tal política de proximidade que traduzida por miúdos não é mais do que satisfazer o interesse de uma determinada clientela eleitoral em detrimento do bem comum. Há cada vez mais o culto da política do pequeno subsídio. Mesmo que o montante seja pouco significativo ou às vezes mesmo irrisório o que interessa é alargar ao máximo o universo de indivíduos contemplados com uma pequena esmola da Câmara ou da Junta de Freguesia. É para a compra de uns livros escolares, para uns cabazes de compras, para apoio aos estudantes universitários. Pequeno subsídio aqui, festinha ou convívio acolá. Uma migalha na compra de cada eleitor, apesar de tudo somado atingir as centenas de milhares ou de milhões de euros, conforme o caso. E assim se ganha o voto que faz a diferença. As questões estruturais vão ficando para trás. Alguém virá depois para resolver o problema. Aqui, como no país.

No país fala-se dos hospitais e das escolas. Por aqui perto, as estradas vão ficando esburacadas, os parques desportivos destruídos e abandonados, os recintos culturais entregues à sua sorte. É este o pensamento. Quem vier depois que resolva.