Chegar à lua por tentativa e erro

Só o som dos meus pés no caminho. Só o caminho e eu. Tão pouco que havia lugar para tanta imaginação.

Era nesses momentos que a minha cabeça alcançava a lua. Pelo menos era isso que me diziam, que andava sempre com a cabeça na lua.

Não sei se conseguia, realmente, chegar tão longe, mas havia ali um fundo de verdade. Desde que me conheço, ou desde que tenho memória de mim, a única coisa que não conseguia travar era a minha cabeça. Sempre a imaginar para lá do que os olhos viam, e os pés percorriam. Sempre a inventar uma qualquer dimensão paralela que me permitisse fugir do que eu era, do que era a realidade.

É que eu não era muito por aqueles tempos. Apenas uma miúda a crescer e a lutar contra isso. Pelo menos parcialmente. Para que queria eu mais uns centímetros, mais uma dificuldade acrescida na minha anatomia de futuro. Mais uns centímetros que comprometiam a minha verdadeira ambição: ser transparente.

Sim, se me perguntassem pelo desejo de um super-poder, eu escolheria, sem dúvida, a invisibilidade. Essa possibilidade de passar pelas coisas sem ser notada. Esse silêncio de mim e dos outros em relação ao que eu era.

E o silêncio era coisa difícil de alcançar numa casa a abarrotar de miúdos a crescer, de miúdos que se sobravam por todos os lados. Éramos assim por aqueles dias, uma coisa a alastrar-se. E, dada essa nossa natureza em expansão, estávamos sempre a invadir o território do outro. Uma espécie de manobra de sobrevivência: enquanto olham para ti, não olham para mim.

Olha as tuas sardas, olha o teu nariz enorme, olha os quatro olhos, olha que não estás a crescer como querias, nem como era suposto. Olha para ti e para os teus muitos defeitos.

E nós éramos defeituosos por todos os lados. Como ordenar uma coisa a crescer desenfreadamente, como ordenar uma cabeça em constante desalinho, como não invadir se estamos em guerra. E era uma guerra aquela coisa de crescer: ou matas ou morres. Não verdadeiramente, mas era assim que te sentias.

A invisibilidade era, por isso, o território mais seguro do tempo em que nos expandíamos para fora de nós.

Se estivéssemos o tempo suficiente nesse estado transparente e silencioso talvez fossem possíveis as tréguas, talvez fosse possível crescer sem invadir e atacar. Talvez fosse possível a paz.

E, por vezes, até era. Era possível a paz.

Eu e o som dos meus passos no caminho. Ainda que a cabeça continuasse a expandir por dentro, a inventar formas de fuga e de silêncio. A imaginar a harmonia possível. A imaginar sair ali para fora e, ao mesmo tempo, ficar. Se pelo menos pudesse coincidir na vontade. Mas nem isso.

Um passo atrás do outro, no caminho conhecido, um silêncio atrás do outro, e a cabeça na lua. Pelo menos era o que diziam: a cabeça na lua. Não sei se conseguia chegar tão longe. Só sei que, ainda hoje, em alguns dias, continuo a ensaiar essa viagem. Não sei se com sucesso, mas a tentativa e o erro servem também uma espécie de invisibilidade.

Já não crescemos, mas ainda fazemos muito ruído e a paz é um estado frágil, tal como o silêncio. Um e outro precisam que se cale tanto. JM