Cantar os reis

Continuava a por as azeitonas, as broas de mel e o bolo-rei já meio rijo à mesa. Não queria ser apanhada desprevenida. E o jarrinho de vinho com o naperon bordado a tapar. Tinha sido bordado por si naqueles dias de mocidade e respeitosos namoros à hora da missa de domingo. Na verdade chamar de namoro àqueles olhares cruzados e faces ruborizadas, na esperança de que ninguém notasse, será excessivo aos dias de hoje. Lembra-se como se fosse hoje de quando o bordou à soleira da porta, com o José a passar vezes sem conta para a ver de longe e a mãe a corrigir-lhe os pontos, que se embaraçavam no nervosismo do primeiro amor. E único.

Há anos que não vinham, mas repetia o ritual. Ouve-os cantar na casa dos vizinhos, mas desde que o marido morreu, ninguém lhe canta mais à porta. Primeiro foi por pudor, afinal ele tinha partido dias antes da Festa e era estranho irem para o terreiro da viúva em romaria. Desrespeitoso até. Depois deixaram de ir porque sim. Afinal a senhora era velhinha, e poderia não gostar, até que se esqueceram dela e das suas melenas brancas de cabelos, presas por ganchos de saudade.

Não se importava. Mesa posta para os convivas. O robe desbotado da idade, como ela, que lhe fora oferecido pelo marido num Natal, ao fundo da cama, onde se deitaram pela primeira vez 59 anos antes. Ou seriam 58. As memórias entrelaçavam-se nos dias vazios de gentes que eram os seus. Lembrava-se mais da juventude, do que dos dias recentes, todos igualmente sós, não fossem as assistentes sociais que lhe vinham dar banho. “Ao que uma pessoa chega”. Mas hoje sabia que era diferente. As pantufas alinhadas junto à mesa-de-cabeceira e de remédios. Eles já andavam por aí que escutava o acordeão nas redondezas.

As gargalhadas joviais trazidas pelo vento gélido de janeiro. E os olhos cheios de lágrimas. O que ela gostava de bailar no adro da igreja nas festas do verão. “Ai ponha aqui, ai ponha aqui o seu pezinho”. E ela punha, o José ao longe a falar com o seu pai e a fazê-la corar. Será que ele tinha finalmente pedido para a namorar? E se o pai não deixasse? Era um homem à antiga, rígido, mas José era bom rapaz, trabalhador. Já tinha um pedaço de terra seu e tudo. “O teu pai deixou”. Os olhos cheios de lágrimas, embaciados de nostalgia. E o cantar de reis ao fundo. Seria da sua cabeça? “Nosso senhor me conserve o juizinho”, murmurava como quem reza.

Será que eles desta vez viriam? “Se vós bem sabiam, se vós bem sabeis, que é no dia de hoje que se cantam os reis”, cantava e embalava-se, posição fetal, até de manhã. JM