O espírito dos tempos

FAKE NEWS À FUNCHALENSE

2017 foi ano fértil em fake news. O conceito popularizado muito por culpa de Trump deu para tudo e passou a fazer parte do nosso imaginário colectivo. Algumas fake news são mera brincadeira, outras são de cariz sério, muitas são controversas, outras ainda são humor puro. Não deixam de ser fake news que ajudam a expor, com primor, a ingenuidade de muitos e um desafio evidente que as sociedades contemporâneas enfrentam.

Mas as fake news mais perigosas não são aquelas que dois dedos de testa detectam num piscar de olhos. As fake news mais perigosas são aqueles que repetidas infinitamente querem passar por verdadeiras.

Nesse campo, os melhores exemplares de fake news regionais vieram da CMF, especialista de alto gabarito na arte de tudo dizer e nada fazer. Foi assim que o líder camarário anunciou e garantiu a reflorestação do Parque Ecológico, a contratação de bombeiros, o dinheiro vindo do Turismo de Portugal para ajudar as vítimas dos incêndios de 2016, a abertura de alguns becos e veredas, a construção de habitação social, a remoção do amianto, a Felisberta, os prédios reabilitados, a compra de veículos pesados de combate aos incêndios, o estudo da Polícia Municipal, a compra de veículos pesados para recolha de lixo, o saneamento básico, a recuperação das zonas altas, o anúncio de um prémio para o qual não estava devidamente habilitado ou a redução miraculosa da dívida, um mistério ainda por resolver.

A coisa chega a ser tão ridícula que as linhas já conhecidas do Orçamento para 2018 da CMF prometem quase os mesmos investimentos já avançados em 2017. Mas a mais sublime das fake news foi aquela que garantiu, pelo menos três vezes, que este mandato era para levar até ao fim. Tudo falso. Tudo fake news.

 

ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DA TRAGÉDIA DO MONTE

As vítimas e os familiares das vítimas da tragédia do Monte deviam formar, rapidamente, uma Associação que defendesse os seus interesses. Sem este instrumento, sem esta capacidade de tornar única a voz de muitos, está mais que percebido que este assunto é para cair no esquecimento, no engodo político e na modorra de uma investigação já severamente comprometida pelos motivos que todos sabem. Mas não se pode desistir. Se o Ministério Público não avança, se a investigação empanca, se os relatórios não são conhecidos nem públicos, se os responsáveis políticos não dão a cara, há que pressionar. Pelas vítimas e familiares e pelo direito que têm/temos de conhecer a verdade.

Olhem para Pedrógão Grande e para o trabalho notável de Nádia Piazza (a verdadeira figura nacional do ano), presidente da Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande. Um trabalho de mérito, imprescindível no apoio, notável na determinação, que não deixa cair no esquecimento um assunto que nos envergonha a todos e que obriga Marcelo e Costa a não descurarem a tragédia nem os direitos de quem passou por ela. Façam o mesmo por cá porque já se passaram quatro meses e meio e nada é dito e nada é avançado e nada é revelado. Há muita gente interessada em varrer para debaixo do tapete o que aconteceu ou em escudar-se num hipotético “segredo de justiça”. E julga que pagar funerais enterra, no sentido literal, o assunto. Não enterra. Porque as pessoas, termo tão caro para alguns, merecem respeito e consideração. O resto é conversa. De mau pagador.

 

AS SÉRIES QUE MAIS GOSTEI DE VER EM 2017

Black Mirror, House of Cards, Game of Thrones, Shameless, The Crown, Narcos, Peaky Blinders, The Americans, Ozark, Suburra, Mindhunter, Goliath, The Man in the High Castle, Fear the Walking Dead.

 

OS LIVROS QUE MAIS GOSTEI DE LER EM 2017 (APENAS NÃO FICÇÃO)

Os Romanov, volumes I e II (Simon Sebab Montefiore), Casanova – A vida de um génio sedutor (Laurence Bergreen), Henrich Himmler (Peter Longerich), Homo Deus (Yuval Noah Harari), Liberdade de Expressão (Timothy Garton Ash), Dinastia – Ascensão e Queda da Casa de César (Tom Hollande), Gestapo (Frank McDonough), Assassinos da Lua das Flores (David Grann) e O Dom Profano – Considerações sobre o carisma (José Sócrates). Este último era a brincar.

Bom ano.