Igualdade de género nos meios de comunicação

Há dias deparei-me com um teste que serve para evidenciar a quase total ausência de papéis femininos no cinema e saber se um filme pode ser classificado como sexista. Basta responder a três questões: 1. Há duas personagens femininas com nome? 2. Essas personagens femininas falam entre si? 3. Falam sobre algum tema que não seja “homens”? A maioria dos filmes reprova de forma escandalosa no teste. A diferença é tão elevada que, se aplicado aos homens, todos os filmes passariam com distinção.

Esta é a realidade. Pode ser num filme, mas também na TV, na rádio, quando folheamos uma revista ou, cada vez mais, ao navegarmos online. Independentemente da escolha do meio de comunicação social, teremos boas hipóteses de encontrar estereótipos que perpetuam a discriminação de género. À semelhança do que ocorre em muitos outros domínios, também os meios de comunicação social não escapam à desigualdade de género. Embora nem sempre demos por ela, de tão “naturalizada”, esta é uma área profundamente desequilibrada em termos de género e onde a sexualização das mulheres é uma constante.

A igualdade de género nos meios de comunicação social é um tema crucial e que deve ser tratado com a máxima prioridade. Cada vez mais, os meios e dispositivos de comunicação exercem uma influência determinante na forma como a opinião pública constrói as suas percepções político-sociais. Eles são um elemento fundamental da democracia e têm uma responsabilidade particular na promoção do respeito pela dignidade humana e no combate a todas as formas de discriminação e desigualdade entre os géneros, assim como na construção de modelos e na abordagem diversificada dos papéis sociais.

Daí a necessidade de uma maior coordenação entre as entidades reguladoras, tanto a nível nacional como europeu, actuando de forma preventiva e dotando-as de poderes concretos para garantir que os meios de comunicação social cumprem com a legislação nacional e europeia referente à igualdade dos géneros e à não discriminação. Foi nesse sentido que o Parlamento Europeu decidiu avançar com um relatório sobre a igualdade de género no sector dos meios de comunicação na UE, no qual me encontro neste momento a trabalhar. Precisamos de uma regulamentação clara e de promover uma literacia mediática nos diferentes níveis de ensino, de forma a sensibilizar os jovens para o carácter restritivo e nocivo dos estereótipos e dos comportamentos sexistas. Temos de ser capazes de identificar, combater e denunciar casos flagrantes de representação sexista e de discriminação nos diferentes meios de comunicação social e na publicidade. Temos ainda de estabelecer sanções claras e adequadas aos infractores.

A comunicação social é uma área tradicionalmente masculina, onde as mulheres entraram tardiamente e quase sempre para lidarem com assuntos “mais leves ou menos importantes”, tendo ainda de enfrentar múltiplas discriminações baseadas no sexo e exercer um esforço acrescido no sentido de se afirmarem profissionalmente e conquistarem o seu espaço.

Manuela Azevedo, a primeira jornalista portuguesa, morreu no início deste ano. Tinha 105 anos. Segundo consta, era a mais antiga repórter do mundo. Numa entrevista em 2013 contou: “Quando pelos anos 30 cheguei ao jornal República, o meu primeiro jornal, esperava-me uma secção criada de propósito para mim chamada Tribuna da Mulher. Recusei imediatamente. Era só o que faltava, nem tribunas de homens nem de mulheres, ali havia jornalistas e quem tivesse unhas tocava guitarra”. Na mesma entrevista, Manuela Azevedo acaba por dizer que “eles lá cederam”, mas que encontrou muitos ossos duros de roer.

Nos meios de comunicação, mas também na política e no mundo empresarial, as maiores discrepâncias continuam a verificar-se nas posições executivas e de topo da hierarquia de poder. Isto porque as mulheres acabam por ser vistas sob mais filtros do que os homens. Somos mais escrutinadas. Podemos ser penalizadas por termos um comportamento menos assertivo, como podemos sê-lo por assumirmos uma atitude firme.

Infelizmente, o discurso adoptado pelos meios de comunicação ainda é um espelho da realidade, centrando-se nas elites dominantes, nos líderes políticos e empresariais ou nas figuras desportivas de primeira linha. Como estes são, invariavelmente, homens, o círculo tende a perpetuar-se.

E mesmo quando as mulheres alcançam visibilidade política e social, assumindo posições de destaque, os meios de comunicação ainda tendem a representá-las de acordo com certos padrões ou estereótipos, para não dizer preconceitos. Quase sempre somos representadas primeiro como mulheres, separando-nos logo de início da nossa identidade profissional, questionando-nos sobre assuntos que nunca se colocariam a um homem, como o de conseguirmos conciliar a vida privada com o trabalho ou qualquer outro relacionado com a nossa aparência.

Este tratamento constitui, muitas vezes, um obstáculo à apreensão da mensagem que nós, mulheres, queremos transmitir. É um obstáculo ao nosso empoderamento e é por isso mesmo que temos de envidar esforços para que os meios de comunicação desconstruam determinadas categorias que reservaram às mulheres. Ao contrário de simplesmente fazerem eco dos estereótipos sociais, os meios de comunicação também podem assumir-se como importantes veículos para os desconstruir e contrariar.

Li numa edição do El País de há uns dias que se realizou em Outubro o II Congresso de Colunistas em Espanha. Pois bem, fez-se a promoção do mesmo com um cartaz em que figuravam alguns dos colunistas que iriam marcar presença. Todos homens. Como é evidente, a contestação não se faz esperar, afinal também havia mulheres colunistas. Os organizadores refizeram o cartaz promocional, incluíram o nome das mulheres convidadas (5 mulheres, 20% do total) e acrescentaram que não eram machistas e que a ausência feminina no primeiro cartaz havia sido um “detalhe” de que não tinham tido consciência.

Este é precisamente o problema. Como podemos modificar o que nem sequer se vê?