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Artigo de Opinião

20/07/2023 08:00

Nas aulas, senta-se próximo da janela. Ao seu lado, fica a Catarina. Ela não tem tempo para apreciar a vista ou cultivar amizades. Dorme em sobressalto. Tem de estudar, não pode descansar, porque se não entrar no curso e na faculdade que escolheu nunca será ninguém na vida!

O Leonardo acabou com média de 16 e a Catarina com 19 ponto qualquer coisa.

O Leonardo revela um excelente desenvolvimento sócio-emocional e com certeza (é a ciência quem o garante!) terá uma boa integração no mercado de trabalho, constituirá uma família saudável e cultivará uma rede social (real) positiva. Já tem melhor saúde física e psicológica do que a Catarina.

Mas a Catarina recebeu um Diploma de Mérito. Ele não!

O Leonardo, o Joaquim e a Maria Inês, que tanto contribuíram para a harmonia e o bem-estar da turma, não receberam um Diploma de Atitudes e Valores… em três anos, não sobrou tempo para enxergá-los e tão pouco para deixar esse registo em ata!

Felizmente, o Leonardo sente-se orgulhoso por quem é…

A Teresa (Simone Biles, para os amigos!) também. Escutou os seus aterradores ataques de pânico, procurou ajuda e cuidou-se. Hoje domina a exigente matéria do auto-cuidado. Redescobriu o prazer de comer, de tocar clarinete e de ajudar os idosos do seu bairro!

A média de 17 levou-a a abrir horizontes. Atendendo ao que verdadeiramente lhe importa, descobriu a sua vocação.

De todos, é hoje a aluna mais feliz. Empunha um Diploma de Honra que enaltece o seu empenho, mas que não lhe custou a vida.

Também ela merecia um Diploma de Atitudes e Valores, concordam?

Segundo a OCDE, a prosperidade económica e a coesão social dos países podem ser impulsionadas pelo desenvolvimento de competências sócio emocionais.

Promover ao longo do percurso escolar competências de adaptabilidade, auto-regulação, comunicação, pensamento criativo, resiliência e resolução de problemas, é imprescindível para desenvolver gerações de cidadãos realmente empenhados no desenvolvimento positivo da Humanidade.

Apesar da ciência reiteradamente validar a importância do investimento na promoção destas competências, este continua diminuto. A sua expressão na avaliação global dos alunos é irrisória, nomeadamente no ensino secundário. O nosso sistema de educação persiste em privilegiar a aquisição massiva de conhecimentos, traduzidos em diplomas de mérito.

Será a cultura do ranking a responsável ou somos nós, os adultos, que andamos a desresponsabilizarmo-nos de enxergar o bem-estar sócio emocional… o nosso e o dos miúdos?

O que observamos? Um crescente número de crianças e jovens que apresenta sintomas de ansiedade, depressão, insegurança perante os desafios do quotidiano. Incapazes de acionar mecanismos de ação integradores e saudáveis, os sucessivos ataques de pânico (e outras manifestações dolorosas) evidenciam as suas fragilidades ao nível da saúde psicológica. Em muitos ressoa "as tuas notas refletem quem és, definem o teu futuro!". São os responsáveis pela sua educação, proteção e segurança que de forma hedionda (mas bem-intencionada!) constantemente lhes relembram que a vida se reduz a três anos!

Sem competências sociais e emocionais, a vida será para muitos um caminho mais difícil e mais tortuoso. Vamos esperançar e cuidar de distribuir mais Diplomas de Atitudes e Valores, sim?

* Artigo escrito em co-autoria com Carina Nunes, psicóloga

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