O súbito acordar dos adormecidos

Há muito tempo que em tão poucos dias não acontecia tanta coisa junta.

A agenda política regional estremeceu no passado domingo. Em causa, as declarações de Sérgio Marques ao DN Lisboa.

Depois, foi o que se viu. O esboço de uma tímida desculpa misturada com uma explicação que não colhe de tão esfarrapada. E a seguir, veio a bomba atómica. Veio a demissão, voluntária ou empurrada, de um deputado que era um dos mais experientes políticos regionais no ativo.

Passado uns dias, há questões que carecem de explicação. Desde logo, o que justificou este ruidoso acordar de um político da situação que viu agora o que negou durante mais de quarenta anos?

Sérgio Marques foi dirigente do PSD-M.

Foi deputado na Assembleia regional.

Fez parte do Governo como diretor regional.

Foi deputado no Parlamento Europeu.

Fez parte do Governo como secretário regional.

Foi deputado na Assembleia da República.

E agora, do nada, numa simples entrevista, Sérgio Marques viu a luz. Acordou da longa dormência. Nesse tempo não viu nada, não ouviu nada, não disse nada. E negou mesmo o que a oposição dizia e repetia, como fingiu não ver o que escreviam e repetiam os jornais.

Então, que foi isto tudo? Um ajuste de contas?

Feito este enquadramento, será justo reconhecer que todo o ser humano tem direito a mudar de opinião. A ver a preto e branco o que antes via a cores. E a retificar o que antes ratificou.

Mas esse repentino acordar não deixa cair a capa da omissão. Do comprometimento. Da cumplicidade.

Mas, no meio do turbilhão, há outros problemas em mãos. E alguns recaem no PSD-M. Na verdade, Albuquerque também tem evidenciado alguns momentos de um estranho metamorfismo como tem sido visível nos últimos meses e como se viu agora.

O presidente do Governo Regional sempre se disse um social-democrata convicto. Mais do que isso, foi, sobretudo, um democrata. Foi assim na JSD, na Assembleia Regional, na Câmara do Funchal. Foi assim na luta interna pela liderança do PSD-Madeira. Até foi assim no seu primeiro governo, quando deu espaço aos críticos.

Mas, depois, percebeu que a democracia que praticava quase o empurrava para a oposição, em 2019. Esse recuo fez de Albuquerque um político mais denso. Mais duro. Mais igual ao que reclamava de outros. E, nos últimos meses, também ele ameaça expulsar os que discordam.

É um democrata que faz agora o que antes não aceitava.

 

E há ainda um terceiro elemento que fez apimentar esta agenda: Paulo Cafôfo.

O secretário de Estado das Comunidades foi notícia por ser alvo de uma investigação do Ministério Público desde os tempos da Câmara do Funchal.

Perante a ‘descoberta’ nacional que repete o que a comunicação social madeirense já disse, Cafôfo fez o que fez noutros processos, com pouco sucesso: respondeu que não sabe, mas está disposto a colaborar.

Este caso resume, para já, duas simples constatações.

A primeira: que sistema judicial é este que permite queimar pessoas durante anos com base em denúncias anónimas? Não pode ser tão difícil concluir um inquérito desta natureza, dê no que der.

A segunda: Cafôfo já devia ter percebido que quando o assunto remete para suspeitas o melhor é chegar antes. Como faz o agora ministro das Finanças que pede para ser ouvido em casos que nasceram quando era presidente de Lisboa.

 

Numa semana em que são tão fustigados os dois principais partidos de poder, fica ainda mais marcado o clima de desilusão geral. Ganha expressão o sentimento de que são todos iguais e que o melhor é olhar para os extremos e desacreditar na política moderada.

Esse quadro constitui um risco que não aproveita os ditos partidos grandes nem os conhecidos partidos pequenos, uns e outros essenciais para a democracia. É caminho aberto para fenómenos extremistas e populistas que crescem à medida que murcham os projetos balizados em ideologias.

Esse filme até pode começar como uma bela novela em nome da justiça. Mas acaba mal. Muitas vezes acaba em ditadura.

Portugal já viveu esse tempo.

Por tudo isso, senhores políticos, sobretudo os profissionais, sejam claros, honestos e democráticos o tempo todo. Não apenas quando convém. E não acordem só quando chegarem à idade da reforma.