Carreira caleidoscópica

Aprendemos a pensar na carreira como um percurso linear dentro da mesma organização, em que o único caminho é subir até ao topo da hierarquia, conhecido como subir na vida ou progredir na carreira. Essa progressão é medida pela obtenção de recompensas materiais, onde se destacam o salário e as oportunidades de promoção profissional.

Por oposição aos modelos tradicionais que estão desatualizados face à realidade atual, surge o conceito de carreira caleidoscópica, desenvolvido por Sullivan e Mainiero, em 2006. A metáfora do caleidoscópio foi utilizada para descrever como a carreira de um indivíduo modifica-se em resposta a necessidades alternadas. Tal como o funcionamento de um caleidoscópio que produz padrões em mudança quando o seu tubo é rodado e as suas lascas de vidro caem em novos arranjos, a carreira caleidoscópica descreve como os indivíduos mudam o padrão das suas carreiras ao rodar os vários aspetos das suas vidas, para organizar os seus papéis de trabalho-não-trabalho e as suas relações de novas formas. As carreiras caleidoscópicas caracterizam-se, pois por três tipos de necessidades, nomeadamente:

1) Necessidade de autenticidade – ser genuíno para consigo próprio e conhecer em profundidade as suas forças e limitações. Para algumas pessoas passa pela prossecução de determinadas atividades de lazer, para outras implica abandonar empregos caracterizados por maus relacionamentos entre colegas e chefias ou por bloqueios na progressão profissional;

2) Necessidade de equilíbrio – desejo de levar uma vida repartida pelo trabalho, família e outros relacionamentos pessoais. É particularmente enfatizada pelas mulheres que sacrificam uma carreira mais competitiva à necessidade de cuidar de crianças ou idosos dependentes;

3) Necessidade de desafio – desejo de aprender continuamente, crescer profissionalmente e encontrar trabalho estimulante, que desafie as suas capacidades individuais. Para algumas pessoas passa por inovarem na sua área de trabalho ou de encetarem o seu próprio negócio.

As três necessidades estão sempre ativas ao longo da vida, influenciando a tomada de decisão. Apesar de uma delas ter geralmente prevalência sobre as restantes, esta ordem muda ao longo da vida, consoante das prioridades individuais em cada momento.

Se as teorias clássicas de carreira ignoram as exigências contraditórias colocadas aos indivíduos ao longo do seu percurso de vida, cabe às organizações, nas suas políticas de recursos humanos, reformular as práticas de gestão de carreiras, de forma a promover modelos pluriformes, que vão mais ao encontro das necessidades individuais de cada colaborador. Caso contrário, existirá uma provável falta de mão-de-obra no futuro, o que já é visível nas baixas taxas de natalidade da generalidade dos países europeus e na insustentabilidade do atual modelo de Estado Social.

Quanto a nós, enquanto indivíduos, não devemos permanecer prisioneiros de diplomas académicos que tenhamos obtido e temos o direito de nos libertar das amarras de categorias profissionais ou organizações que coartam, mais do que libertam, o nosso potencial e talento. Cabe-nos a audácia de movimentar o nosso próprio caleidoscópio, de forma a produzir novas cores na nossa jornada profissional em prol da nossa realização pessoal. Como sabiamente disse Sharon Salzberg, autora best-seller do New York Times: “A vida é como um caleidoscópio em constante mudança – uma ligeira mudança e todos os padrões se alteram”.