Quando uma foto denuncia a desumanidade dos homens: o caso das Escolas Daara

“Um homem de braço erguido açoitando uma criança. Um amontoado de crianças dormindo no chão. Um pé acorrentado. Crianças mendigando nas ruas. Pobreza. Uma criança com cicatrizes no rosto por ter sido açoitada. À medida que vai passando as páginas do livro, o fotógrafo Mário Cruz vai contando as histórias daquelas imagens, captadas há mais de um ano, no Senegal (descreve a jornalista). ‘Quando vejo estas fotografias não vejo só as fotografias. Sei qual é o cheiro que estava aqui, quem são estas pessoas.’” Mário Cruz in DN Lisboa, 2016, autor do livro Talibes - Modern Day Slaves.

​Acho espantoso quem tem a capacidade de captar o instante por uma lente que espelha o que temos de melhor e de pior. A beleza e a arte inerentes à fotografia deixam-me sempre a pensar na coragem e, em alguns casos, na sorte que é ter e usar um dom assim. Usar no sentido da arte, ou da captação desse instante, servir para nos dizer alguma coisa que vai para além das palavras. Foi assim que descobri as Escolas Daara no Senegal. São escolas tradicionais corânicas onde as crianças, pelo menos em algumas delas, são escravizadas. São espaços que não pertencem ao sistema educativo formal senegalês e onde estes meninos, os talibés, são entregues pelas famílias para serem educados numa tradição religiosa e moral muçulmana.

De acordo com a Human Rights Watch, pelo menos 50 mil rapazes são forçados a mendigar nas ruas senegalesas, durante longas horas, por professores hostis, conhecidos como marabouts.

Estas escolas já existiam antes do domínio francês naquele país e, já na altura, os meninos viviam longe da protecção da família e a mendicidade era o instrumento utilizado para cobrir as suas necessidades alimentares. Durante o domínio francês as autoridades não foram capazes de garantir escola pública a estas crianças e em 1960, com a independência do Senegal, as escolas corânicas tornaram-se as mais comuns, principalmente nas zonas rurais. Com as graves secas dos anos 70, o fluxo de migração foi de tal ordem que as populações mais afectadas, inclusive os marabouts (professores e líderes muçulmanos respeitados localmente), se deslocaram para as cidades. Nos anos 80 a mendigagem forçada tornou-se uma prática comum e estes meninos são obrigados a trabalhar durante dez horas. Isto é, entende-se que mendigar faz parte desta educação corânica. Com latas penduradas ao pescoço e com a roupa imunda, estes meninos são acorrentados, espancados, abusados, negligenciados e explorados por estes denominados “professores”.

Porque vos escrevo sobre estes meninos? Porque aquela fotografia do Mário Cruz, entre a estética artística e a doída estranheza da desumanidade que senti, fez-me levar este problema à Comissão dos Direitos Humanos. Sete meses depois do meu pedido ao Parlamento Europeu para colocar os meninos do Senegal na agenda, Mário Cruz vai apresentar-se a esta instituição para nos contar a sua experiência e denunciar a violação dos direitos destas crianças, chicoteadas em países que são financiados com dinheiro público europeu. Entre 2008 e 2013 o Senegal recebeu da União Europeia 340.3 milhões de euros. Em 2016 colaboramos com cerca de 60 milhões só para projectos de parceria. Contribuímos, em 2017, com 4.1 milhões de euros na ajuda humanitária de combate à subnutrição que atinge 20.400 crianças naquele país.

Eu continuo com esta imagem na cabeça. Podia ser um menino qualquer. Mas é um menino entregue às escolas religiosas do Senegal. A arte também pode ter uma palavra a dizer sobre os direitos humanos. O fotojornalismo de Mário Cruz faz isso. JM