Uma estranha fé secular

Existe uma fé, tantas vezes tão inabalável quanto irracional, que garante que a pacificação de uma sociedade se faz por via legal — pelo Estado, a favor do Estado e nunca contra o Estado — e que as interacções entre indivíduos devem ser balizadas de forma apertada de fora para dentro, de cima para baixo e por antecipação. A lógica parece ser a de que, se forçarmos um certo comportamento desejável ao indivíduo, este passa a compreender a bondade desse comportamento e imprime-o no seu código de moral, elevando-o. Já se proibirmos um certo comportamento ao indivíduo, este compreende a imoralidade daquele e imprime-o no seu código de moral, evitando deterioração deste. A fé insiste, portanto, que a colectivização forçada moralizará o indivíduo.

Em todas as espécies sociais, a socialização — ou adaptação dos indivíduos ao grupo em que se inserem, ou pretendem inserir-se — é um fenómeno natural, que acontece por influência e exemplo do grupo, por vezes pressão, sim, a que o indivíduo se adapta e sujeita de forma voluntária. Se não o quiser fazer, ou disso for incapaz, afastar-se-á ou será mais ou menos afastado do grupo na medida em que se adapta, ou não, à ética comum. Este fenómeno depende, de forma bastante vincada, da interacção voluntária, livre e natural entre os diferentes indivíduos; de dentro para fora, de baixo para cima e por análise posterior dos resultados da interacção. Todas as sociedades naturais existem dentro destes preceitos, produto das inumeráveis interacções que acontecem, naturalmente, entre cada um dos indivíduos que as compõem. Se forçarmos a uniformização das interacções, a multidão de interacções variáveis, de aprendizagens em direcção à socialização e consequente moralização do indivíduo, definha, empobrecendo a edificação da ética social.

Sendo assim, não será difícil verificar esse fenómeno perverso. Para que é que eu preciso de compreender o próximo, de me empatizar com ele, de definir estratégias para me proteger dele, para balizar os meus comportamentos de forma a não perder a empatia dos outros e o meu lugar na sociedade, se a lei o fizer por mim? Se eu souber que determinado comportamento é obrigatório, ou proibido, porque é que eu preciso de saber porquê? Basta-me o terror a ser perseguido pelo braço judicial do Estado. E quando não há uma lei específica? “Não é obrigatório, pois não?” ou “não é proibido, pois não?”.

Também a bondade das intenções legislativas tendem a ser secundárias em relação ao reflexo de evitar a dor. Quase todo o condutor usa o cinto de segurança porque tem medo da multa, não porque alguma vez considerou, seriamente, as vantagens e desvantagens (também as há) de o usar. Quantas e quantas vezes não se vê atirar a ética pela janela fora, sob o amplo guarda-chuva do estritamente legal?

Pretende, esta secular fé, que a uniformização é o passo sacrossanto na direcção da elevação da sociedade a patamares próximos da perfeição. A Natureza discorda: onde há uniformização genética, fenotípica, ou mesmo comportamental, há o potencial para um beco-sem-saída evolutivo. É na variedade, tanto de soluções como de resultados, que está sobrevivência. É na variabilidade, tanto de soluções como de resultados, que espécies e sociedades, de forma equivalente, evoluem.

De cada vez que pensarmos em “devia ser obrigatório/proibido!”, pensemos antes em dar o exemplo; em praticar o que pregamos.