Piedade popular no Advento e Ano Litúrgico

A piedade popular foi muito estudada, discutida e aprovada no Concílio Vaticano II. São diversos os documentos do magistério recente. “Por isso, quanto de bem se encontra semeado no coração e na mente dos homens, ou nos ritos particulares ou nas culturas dos povos, não só não se deve perder, mas deve ser sanado, elevado e aperfeiçoado” (AG,9).

Para além das várias e sucessivas correntes agnósticas, frequentes em nossos tempos,

são muito os estudiosos que admitem que no coração de cada cultura do povo e da experiência coletiva mais orgânica está a dimensão religiosa, que chamamos religiosidade popular. Cada povo tem a capacidade e a tendência para exprimir as próprias convicções religiosas, em relação com a sociedade e destino, não só através de afirmações teóricas de princípio, mas principalmente através de atitudes, ritos, mediações, símbolos, festas.

Quando um povo é evangelizado, a religião natural deve ser não só purificada, mas também assumida, levada à plenitude pelo positivo que contêm. (AG.9,22). Nesta operação de oferta, o património autóctone deve ser integrado e fecundado, não ignorado nem destruído, como algumas vezes aconteceu na história da evangelização, revelando-se uma história de elites.

Aconteceu que o povo, visto como massa popular em sentido genérico, apostou em formas de culto, de celebrações, de expressões de religião, praticamente marginais, em relação às verdades centrais da fé. Aparecem devoções de práticas de piedade, de exercícios ascéticos ligados à sua capacidade cultural, próximas da magia, do fatalismo, do ritualismo sem vida, afastados da comunhão, da adoração em espírito e verdade.

A novidade introduzida pela reforma nem sempre foi bem-recebida, alguns julgaram-se empobrecidos, preferindo a missa de São Pio V, com o latim, com o sabor de mistério, com o complexo de ritos, círios, incenso, etc. -Alguns não se resignavam com a nova liturgia, mas não faltaram sacerdotes e pessoas religiosas aos quais se lhes pediam serviços religiosos se afastaram da mentalidade conciliar. Outras vezes, o povo pratica em particular o que lhe é requerido, procurando aquilo que falta de festa e espontaneidade. Mas surgem problemas difíceis, como é possível levar para a China e Indochina a religiosidade popular da França, ou a da Espanha, de Portugal e da Itália para o oriente europeu?

Roma adverte: “Não procureis de forma alguma persuadir aqueles povos a mudar os seus costumes, o modo de os viver, quando não estejam abertamente contrários à religião e à moral.” Alguns estudiosos pensam, há uma documentação vasta, que ainda não se encontrou a maneira mais adaptada para uma exata interpretação.

A religiosidade popular exige, colocar-se da parte do povo, das motivações, dos sentimentos e ter a capacidade mística e espiritual do povo no seu conjunto.  É preciso, portanto, respeitar o povo e o catolicismo popular. Uma espiritualidade popular tem uma força e as suas debilidades, como qualquer espiritualidade que nasça do povo.

O texto da Evangelii Nuntiandi recomenda aos responsáveis das comunidades eclesiais a estrada para individuar “as normas de comportamento nos confrontos desta realidade tão rica e ao mesmo tempo tão vulnerável, antes de tudo é preciso ser sensível, colher as dimensões interiores e os valores inegáveis” (n.48 E.N.). Há valores que emergem de uma forma especial da religiosidade popular, o núcleo central é a celebração das festas, na qual o povo entra como protagonista, é uma experiência ativa de si mesmo, na liberdade do momento, no trajar uma veste bonita, no cântico, no divertimento.

Para haver festa, precisa-se da liberdade de acolhimento, de reconhecer a gratidão, o desejo de paz, um sentido de admiração e louvor, a terra é o espaço em que o homem está imerso e sente-se Deus perto de nós. Não é uma fuga do quotidiano, mas o gozo de uma dimensão nova de estar em conjunto, que não se reduz à produtividade e consumismo. Na festa, convivem fantasias, desaparecem as classes, não há pressões nem tristezas. Nelas, o povo sente-se ligado ao passado e, com o sonho de uma outra vida, espera uma experiência de melhor convivência. Nas festas, comparecem também os símbolos que sugerem não só emoções pessoais, mas relembram tragédias históricas, sofrimentos arrepiantes do passado.

Nestas festas ressurge a presença da Mãe, a Virgem Maria, ela dá esperança, o seu nome na população da Madeira relembra desgraças do passado, aluviões, dilúvios, desabar de rochas, matanças dos piratas, raptos de mulheres para a costa de Marrocos. O povo deu-lhe nomes que recordam o passado, ELA É MÃE DE DEUS, a THÉOTOKOS, mas também a Virgem do Livramento, a Senhora do Monte, do Amparo, do Socorro, das Angústias, da Consolação. A Mãe de Jesus está ao lado do povo, dos oprimidos, dos mais desgraçados, dos sem Deus. É uma certeza de fé, que consola, é uma presença amiga que consola e aquece.

Para nós madeirenses, em dezembro, ela é a Aurora da Redenção, a Virgem do Parto, tão pobre tão pobre, que o Filho nasceu numa gruta de animais, em Belém. Ela é invocada nesta terra, cantada, ovacionada na aurora, antes do nascer do sol, num novenário que celebra a Mãe do Salvador. É a FESTA com todas as letrinhas maiúsculas, é a Senhora da Imaculada Conceição, sem mancha nem ruga, que preside à vida de um povo da qual é Padroeira, embora serva do Senhor Deus Omnipotente.

O discurso da religiosidade popular reabre de novo um conjunto de elementos teológicos, eclesiológicos, espirituais e culturais muito complexos.

A religião e a teologia dispensam respostas rápidas, dadas ao sabor do que parece mais sensato segundo a mentalidade corrente, não tendo em conta a profundidade da alma humana e da história da Igreja que trata das coisas de Deus com seriedade e dignidade. É preciso reconsiderar o passado à luz do presente, colocando em conjunto curiosidades sobre a piedade do povo de outros tempos. Este fenómeno tão antigo e sempre novo, trata do mistério profundo do homem, das suas últimas aspirações, da sua relação com Aquele que é a misteriosa e viva presença de toda a história, que na pessoa de Jesus “se fez carne e habitou entre nós (Jo.1,14).