Memórias da Quinta Imperial

Mais ou menos entre os 17 e os 19 anos, em plena década de 80 do século passado, eu registava numa série de cadernos tudo o que me acontecia após a ingestão de cinco imperiais, ou seja, um litro de cerveja, quantidade que era sempre ultrapassada quando saía à noite.

Para além dos atos, que nunca foram tresloucados nem muito excessivos, eu descrevia sobretudo os pensamentos e as emoções que os embalavam, criando assim uma montanha de filosofia poética embebida em álcool a que dei o título genérico de Memórias da Quinta Imperial.

Era para ser uma obra-prima da literatura portuguesa, claro, mas infelizmente descambou em fogueira e cinza. Naquele tempo eu escrevia com arrogância e sem filtros, porque era uma criança inocente. Isso tinha um certo encanto, uma certa magia, sem dúvida, mas, por outro lado, também é verdade que eu escrevia mal, muito mal, sem génio, sem firmeza e cheio de erros, sobretudo erros ortográficos. Um horror. Eu sabia que era assim, tinha consciência da coisa, e, por isso, volta e meia pegava lume nos cadernos e prometia a pés juntos nunca mais voltar a escrever.

Ainda hoje sou assim…

Perdi tantos textos de tantas idades, mas como sempre acontece em qualquer guerra ou catástrofe, também aqui houve uns quantos que escaparam e são esses que agora contam a minha história. Há dias encontrei dentro do baú algumas folhas soltas que integravam o conteúdo de Memórias da Quinta Imperial, essa obra notável que o fogo levou. Ora vejam o estilo:

Escrever é descer ao esgoto. Não há nada à superfície que se possa compreender. É necessário descer, descer, descer até ao fundo do esgoto. Descer. Descer. Descer. É no esgoto que as pessoas guardam as suas coisas. 

Neste caso, a palavra ‘esgoto’ mata a beleza do texto, não é? Eu devia ter procurado uma palavra mais profunda, contudo igualmente ordinária, para definir o lugar onde as pessoas escondem os fundamentos do seu ser. Enfim… Fazer o quê?! Aquela era a época da minha eternidade, às vezes transformada em verso alucinado:

Um dia alguém me disse

que eu era um charlatão

um charlatão!

Esse alguém nasceu

em onze de novembro

de mil novecentos e sessenta e sete.

Nasceu na freguesia do Monte

Funchal Madeira

Esse alguém chama-se

Duarte Martinho Velosa Caires.

E era alguém?

Era alguém.

Depois, havia as tiradas enigmáticas, como esta, por exemplo:

Sinto-me na obrigação de dizer como foi o dia. Posso também inventar que o dia foi uma coisa qualquer que não aconteceu. Posso ficar parado. Posso chorar. Posso ficar comovido e recordar. Posso recordar o sol, talvez o vento, a distância entre as aves e as árvores, posso recordar o mar. Posso dizer que bebi dez cervejas, comi qualquer coisa, senti o corpo doente. Mas também posso dizer ‘Estou muito feliz!’ Posso dizer ‘Hoje foi um grande dia!’ Posso dizer ‘Fiz tudo o que um homem faz, um animal!’ Posso ainda dizer o nome de uma pessoa com quem estive, uma mulher, posso dizer que fiz amor com ela ou talvez seja melhor dizer que fizemos sexo, porque sexo foi mesmo o que fizemos.

É mentira. Eu não tinha feito sexo nem amor com nenhuma mulher naquele dia. Nem naquele, nem nos outros. Coitado de mim. Perdi a virgindade tão tarde, mas graças a Deus antes de ir para a tropa. Seria uma tristeza ir para a tropa virgem.

Havia também textos descritivos, como este:

Sábado. Desci na camioneta das 20h30. Cheguei ao Funchal às 20h50. Pulei fora do autocarro na primeira paragem à entrada da cidade, que fica à frente do edifício dos CTT. Dali fui ao Centro Comercial do Infante, à casa de banho. Sentado na sanita, fiz um pensamento de retrete: Se eu não tivesse o hábito de trazer comigo papel higiénico estava bem tramado! Depois, fiz-me calmo à cidade. Fui até ao Apolo, desci para a Avenida do Mar, dei um passeio no cais e, finalmente, decidi ir beber uma cerveja na Marina.

Em breve teria já bebido mais de cinco…