O Presidente, o Mundial e o Rei

Todos nós, de uma maneira ou de outra, nutrimos respeito pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não só pelo cargo que ocupa, mas sobretudo pela forma como o tem desempenhado. É, sem qualquer espécie de dúvida, o Presidente da República mais interventivo do pós 25 de Abril, apesar do Presidente Soares ter sido o que mais apreciei. Todavia, por vezes, Marcelo leva ao limite esse seu voluntarismo, o que para ser sincero, começa a ser cansativo, extenuante e a “cheirar” a falso, fruto do exagero, só por isso.

O Presidente fala sobre tudo porque a imprensa quer saber tudo, junta-se a fome à vontade de comer, dá-lhe corda, e ultimamente ele tem-se encarregue de a colocar à volta do seu próprio pescoço, como se verificou no comentário que produziu relativamente às vítimas de pedofilia no seio da Igreja Católica, que mereceu de imediato uma crucificação generalizada por parte daqueles que lhe colocam o microfone à frente, mas também de outros, o que motivou inclusive que tivesse de produzir um pedido de desculpas.

Mais recentemente engrossou o coro daqueles que criticam o Qatar e com isso arranjou um imbróglio diplomático, mormente, no que tem a ver com o desrespeito pelos direitos humanos verificado naquele país, que não é de agora e que foi esquecido aquando da atribuição da organização do Mundial, já lá vão alguns anos, processo que, ao contrário do que se diz foi muito claro: muitos dos votos que a candidatura granjeou foram comprados, uma autêntica vergonha. Por vezes o Presidente fala como falaria o cidadão Marcelo confundindo os papéis.

A hipocrisia da comunidade internacional tem destas coisas, primeiro alinhas e depois criticas. Foi essa a postura do chamado Mundo Ocidental. Claro que, no mencionado processo, esteve quase tudo mal, claro que morreram milhares de trabalhadores na construção dos estádios, claro que usaram e abusaram da fragilidade socioeconómica dessas pessoas, da sua origem, em suma dos seus mais elementares direitos, os direitos humanos.

Marcelo também tinha de ir ao Qatar e como prometeu, ainda por terras lusas, deu um murro na mesa, em nome dos direitos fundamentais, consequência: ficou com o pulso dorido.

Precisa, pois, de treinar mais, pode começar por voltar ao Alentejo onde imigrantes de vários países que trabalham na agricultura são explorados, vivem em condições miseráveis e onde os seus direitos também não são observados. Volta e meia fala-se do assunto mas o problema persiste - lá está a tal hipocrisia.

Já no tocante ao Rei Ronaldo a coisa também não tem sido fácil desde o final da época passada. Cristiano empreendeu um caminho que o colocou nas bocas do Mundo, mas desta vez por razões menos nobres mas ele lá sabe as linhas com que se cose. De uma coisa não tenho dúvida: ele é o desportista português com mais visibilidade mundial e parece-me que tão cedo nenhum outro lhe fará sombra. No entanto isso só lhe aumenta a responsabilidade e diminui a condescendência, é bom não esquecer.

Ronaldo goza de uma popularidade mundial muito mais ampla do que a que o Presidente Marcelo tem em Portugal, em termos relativos. CR7 é uma marca de dimensão mundial que desperta sentimentos, por vezes, de sinais contrários e que oscila, indelevelmente, com tudo o que o futebolista faz.

Cristiano Ronaldo tem dado muito ao mundo do futebol e o próprio tem sabido adaptar a sua performance desportiva e o seu posicionamento em campo, à idade, que vai avançando. Só falta adequar o discurso também a essa realidade para que assim evite polémicas que são dispensáveis, para mais quando o ocaso da sua carreira futebolista já se vislumbra.

Qatar, Marcelo e Ronaldo iguais a si próprios.

Força Portugal!