De ter tudo, a não ter nada

De recuperações improváveis, a quedas inimagináveis. Se o texto anterior foi um texto de esperança, este é um texto de realidade dura. Na vida é fundamental conseguirmos equilibrar a esperança com o realismo, para não ficarmos nem cegos com óculos cor-de-rosa, nem nas profundidas do desespero existencialista.

Um homem, casado, com um filho e filho ele próprio, trabalhador, responsável. Viveu as dores da adição da heroína. Das adições mais duras de ultrapassar, com dores físicas e desejos intensos de paz interior. Um refúgio inicial, uma praga que perdura. Reconhecida como uma das drogas “pesadas”.  Quem teve a ideia brilhante de separar as drogas em pesadas e leves, não fez um favor à sociedade. Uma adição é uma adição. Diferentes gravidades, mas em todas as adições a substâncias e adições a “não-substâncias”, como o jogo de apostas, o jogo de diversão, sexo, compras, ... a gravidade da adição não se mede pelo peso da substância. Todas podem ser catastróficas ou superáveis.

Da doce maquiavélica heroína, depois de muitas dificuldades, conseguiu superar e construir a sua vida. Trabalho, casamento, filho. Tinha uma vida completa. Depois veio o dia, em que foi aliciado a experimentar o “bloom”. “Isso não vicia”, “sentes uma energia e ficas bem”, “é barato”, “podes parar quando quiseres”, “dá energia para trabalhar”, “nem precisas de parar”, “podes sentir e ter o que sempre quiseste”, ...

E mal começou a consumir, começaram os problemas. A energia que dava, parecia ser fantástica. Depois começou a desenvolver sintomas psicóticos em que acreditava que existiam pessoas atrás dele. Que a esposa era infiel. Que o filho mentia. Quando consumia, era este o mundo em que vivia. Quando parava, tudo voltava ao normal. A situação agravou-se e ficou agressivo. Rapidamente a família pediu ajuda. Fez medicação. Foi internado. Foi seguido por várias equipas, vários médicos, vários internamentos, uns voluntários e outros involuntários. Passaram-se vários anos. E perdeu o trabalho. Perdeu o casamento. E até na casa da mãe não podia mais estar. Emagreceu de tal forma que parecia um esqueleto ambulante. Já não conseguia conversar e penso que mesmo as capacidades cognitivas estavam bastante reduzidas. De ter tudo, passou a não ter nada. E ele tentou deixar? Tentou. Queria deixar? Queria. Imensas vezes. Mas o que é mais assustador é que alguém que foi capaz de deixar uma das substâncias mais difíceis, não foi capaz de deixar o “bloom”, até agora.

Infelizmente muitas são as histórias infelizes associadas a estas novas substâncias. Na Madeira e em outros locais, continuam a ser um flagelo enorme, descritas por muitos como mais difíceis de deixar que a heroína. Quantas vidas estão a ser desperdiçadas. Famílias que estão a ser destruídas por estas substâncias. Como podemos assistir a esta realidade e não dizer nada? Fazer tão pouco? Passou-se mais um ano e o serviço de saúde continua a falhar, pouco investe nas adições, mantendo abaixo do mínimo a contribuição dos psiquiatras para diminuir este flagelo. Não é a única falha do sistema, mas é uma falha importante. Esta é uma verdadeira epidemia na região, um flagelo de destruição, que está a gerar criminalidade e que só vai aumentar nos próximos anos. Mas temos todos de dar os parabéns ao SESARAM, que pela primeira vez tem um serviço de urgência com psiquiatras em presença física durante o dia. Um passo importante para os serviços mínimos de um serviço de psiquiatria.