A Casa

Hoje, começo com uma confissão. Faz-me alguma confusão o populismo. Em todos os domínios da nossa vida, mas sobretudo nas áreas sociais. Nas vulnerabilidades. Nas fragilidades humanas. Volto ao tema das Pessoas em Situação de Sem Abrigo (PSSA). Volto atrás no tempo, por todas elas. Estávamos em outubro de 2013, e, na capital do nosso país, nascia mais um projeto que faria a diferença para quem não tinha um teto: os Cacifos Solidários.

Criado pela ACA – Associação Conversa Amiga, este programa passava por disponibilizar um cacifo em metal, individual, privado, em ambiente de rua, acessível 24 horas para PSSA. A ideia destes cacifos amarelos era a de dar a possibilidade a esta população de guardarem os seus pertences de forma ‘segura’. Coloco aqui umas aspas pois esta questão seria mais um tema a discutir, na medida em que ainda alguns acrescentariam a referência a esta ser uma forma ‘digna’, que deveria concorrer para a promoção de autoestima, empoderamento e de motivação para a mudança. Um cacifo seria uma espécie de um «’degrau’ entre a rua e uma vida fora desta». É esta a ideia que ainda hoje, 30 de novembro de 2022, permanece e consta no site da referida associação. Um ideal suportado por publicação de recortes dos media da altura.

No mesmo site, temos acesso ao alcance deste projeto solidário, que encontrou abrigo em Portugal (48 cacifos) e em França, nomeadamente em Montereuil (24 cacifos), Clermont-Ferrand (12 cacifos) e Annecy (12 cacifos). Doze. Um número importante para a Numerologia. O mesmo número que tem os meses do ano, o número que divide no nosso relógio o dia em duas partes. Doze, também é o número dos apóstolos de Jesus.  Também o mesmo número dos Cacifos Solidários instalados no Funchal. Em 2017. O presidente da Câmara na altura, Paulo Cafôfo, anunciava, ainda, que, na sequência do Projeto dos Cacifos Solidários iriam ser criadas equipas de trabalho social constituídas por psicólogos, médicos, assistentes sociais e voluntários. Para além da sede atribuída à ACA, num edifício camarário, nunca me cruzei com essas equipas. E não, não é porque não conheço o tecido social. E sim, dediquei parte da minha vida profissional e pessoal a esta causa. E não, não ando distraída. O problema persiste. A ‘receita’ não pode ser a mesma. Continua a ser necessário insistir no trabalho que já acontece no terreno. Em rede. E sim, não se pode assumir o ‘sem-abrigo’ como condição de vida de uma pessoa, mas sim como uma situação que poderá caraterizar uma determinada fase na vida de uma pessoa e que todos nós desejamos que seja de transição na vida destas pessoas.

Termino como comecei. Com uma confissão. Faz-me alguma confusão o populismo. Um cacifo não é uma casa. Uma chave de um cacifo não é uma chave de uma casa. Um cacifo não é uma ligação entre um espaço público – rua, jardins, paragens de autocarro, estacionamento, passeios, vãos de escada, entradas de prédios, casas abandonadas, viadutos, pontes ou outros – e uma casa. Antes da casa, a de que tanto falam, construída pela Câmara Municipal do Funchal, destinada a acolher estas pessoas, há um caminho a ser feito. Com critérios definidos, planeamento e adequação da intervenção às diversas personalidades e realidades existentes. Com compromissos. Com projetos de vida que caibam naquelas paredes. As PSSA não são todas iguais. São pessoas como nós.