Larga teu pai à porta do hospital

Meu pai nasceu em 1927. Na infância, andou descalço e teve uma vida difícil, como tantos homens do seu tempo. Cresceu. Fez-se homem e ganhou a vida nas oficinas de carros do Leacock. Com grande orgulho, já jovem adulto, aprendeu a ler e a escrever, graças à mente aberta do patrão inglês que contratou um professor para ensinar aquela rapaziada inculta.

Sei imensas histórias tristes desses tempos, mas sempre contadas com imensa graça e humor. Como é tão bom rir das nossas tristezas! É meio caminho andado para afugentar depressões e trazer a felicidade!

Nunca falei abertamente sobre a complicação que foi cuidar dos meus velhinhos, mas vou fazê-lo agora, abordando o tema do abandono dos idosos, não para eu encontrar respostas, mas para lançar perguntas ao coração dos Homens. Eu sei as respostas. Esta última afirmação não é de eu ser convencida ou arrogante, acreditem-me ou não, mas de sentir a paz do dever cumprido.

Todo este blablá vem a propósito de uma conversa com duas amigas, cada uma na sua vez, que sem quererem, acredito que sim, me puseram com o coração a chorar.

A primeira conversa aconteceu há alguns anos na minha outra escola. Eu estava tão cansada com tanta vida em cima de mim, com minha mãe eternamente acamada, a tia Elvira com Alzheimer e meu pai, a força da casa, com cancro. E foi quando uma amiga, com pena de mim, acredito, sentenciou “Olha, larga teu pai à porta do hospital!” Por aquela não estava nada à espera!  Mas que conselho! Não sabia se chorasse ou se lhe contasse da boa alma que era o meu paizinho!

A segunda conversa é mais recente. Fiquei a saber que uma amiga considera que os meus pais foram egoístas. Pois! A vida é assim! Paciência! Lá vieram as palavras de comando, de quem sabe tudo, outra vez, para me cortar o coração! “Teu pai devia ter feito assim e assado”! “Tua mãe deveria ter feito frito e cozido”! Foi mais ou menos assim este o diálogo, porque nós, como família, tínhamos sido emigrantes nos EUA. Eu tinha seis anos. Por isto ou por aquilo, voltámos à nossa terra e eu fiquei tão feliz por ver de novo as borboletas, as papoilas, o trigo a amarelar nos poios, as ameixas a amadurecer nas ameixeiras pelos bardos, as nossas flores, as levadas a cantar pela nossa vereda abaixo, os poços de águas esverdeadas, o nosso cachorro, o Marquês, as andorinhas aos bandos e tantas outras simplicidades tão boas. Há lá coisa mais bela?

Esta minha amiga acha que não, mas que coisa tonta! Nunca deveríamos ter voltado à Madeira. Diz ela que eu poderia estar muito bem agora, naquele país riquíssimo. Diz ela também que minha mãe, quando sofreu o AVC, deveria era ter sido internada para eu viver a minha juventude e ter outras condições de vida. E meu pai deveria era ter tratado de tudo e pensar no futuro das filhas! Que vida tacanha e triste!

É tudo muita verdade, sim senhora, mas é que meu pai não comia o pêro que minha mãe lhe punha para sobremesa para deixar para “as pequenas” comerem; mas é que meu pai nunca me virou as costas e nas minhas horas de aflição ele sempre esteve comigo para aparar os golpes; mas é que meu pai, até aos meus 40 anos, é que me comprava o pão para a minha casa, sem eu lhe pedir nada; mas é que ele amava os netos e a sua família e por nada deste mundo nos deixaria para trás!

Quer dizer que então agora está na moda amar a casa, o carro, as roupas novas e os sapatos de marca, a maquilhagem, as viagens, os jantares, o ginásio, o cão só de raça, o telemóvel, as tecnologias todas e mais o raio que o parta e está na moda abandonar o pai à porta do hospital?

Que mundo é este? Eu não quero nada disto!

Não! Nunca largaria meu pai à porta do hospital e sinto-me muito bem com a minha decisão!