Sem título

Sem título, não por falta de ideias mas porque, ultimamente, os títulos, as notícias, as informações e as publicações não têm agradado, de um modo geral, os leitores. Reconheço a dificuldade de agradar a todos. Não é sobre isso. É sobre os discursos que surgem como consequência desse desagrado. Discursos de ódio. Discursos pesados, ofensivos, discriminatórios, desprovidos de cuidado, educação, respeito ou empatia.

Este fenómeno não é recente, no entanto, a internet e as redes sociais potencializam e difundem a dita “cultura de ódio”. As pessoas, no exercício do seu direito à liberdade de expressão, comentam e partilham a sua opinião sobre as publicações, as fotografias, os vídeos e as notícias online, sem, por vezes, compreenderem que o seu discurso pode estar a ofender outras pessoas e a causar danos irreparáveis na sua identidade.

Infelizmente, muitas pessoas são influenciadas pela opinião alheia, vivem reféns da aprovação do outro e, consequentemente, conscientemente ou não, têm baixa autoestima, desenvolvem vários tipos de complexos ou traumas e apresentam dificuldade em desenvolver livremente a sua personalidade.

Há uns tempos atrás, deparei-me com uma partilha de um amigo, que alertava para a importância de viver e de ser feliz, com a consciência que somos incapazes de agradar o outro. O autor é desconhecido e podíamos ler o seguinte:

«Trabalha 12 horas: não vive. Trabalha 9h: não vai ter nada na vida. Trabalha 4h: Vida boa! Malandro! Não trabalha: Parasita da sociedade. (…) É empresário: explorador! É funcionário: não vai ter nada na vida (…) a enriquecer o patrão. Funcionário Público: Não faz nada. Vida boa! Paga renda: deita dinheiro fora. Tem casa própria: vai passar a vida inteira a pagar a casa. (…) Faz uma publicação: só quer aparecer. Não publica nada: vida desinteressante. Está sozinho: encalhado. Numa relação: a aceitar traições qualquer relacionamento dura. É gordo: demasiado gordo, não sabe cuidar de si. É magro: demasiado magro, não sabe cuidar de si. É musculado: não faz mais nada da vida ou toma “bombas”. Fala a verdade: mau feitio, mal educado. É educado: falso. Nada do que fizeres vai agradar a todos. Então faz o que for melhor para ti sem te preocupares com a opinião alheia.»

Como referi, o problema não está na discordância ou na partilha de opiniões porque as pessoas são livres de o fazer. O problema prende-se com as palavras cruéis, obscenas e depreciativas, os palavrões, os discursos baseados na ignorância, no preconceito e na falta de educação, que são utilizados e são capazes de ferir a dignidade do outro.

James Allen, no seu livro sobre Uma Vida com Propósito, analisa esta questão do ódio e da intolerância e as consequências dos mesmos para quem os manifesta. Permitam-me que partilhe um breve trecho:

«O ódio, a impaciência, a ganância (…) são ferramentas grosseiras, e quão ignorantes e inábeis são aqueles que as utilizam! O amor, a paciência, a bondade, a autodisciplina (…) são ferramentas perfeitas, e quão sábios e engenhosos são aqueles que as utilizam!

(…) antes de tentar governar as coisas, o homem deve aprender a governar-se a si mesmo. Os homens que, (…) cedem habitualmente a (…) explosões de raiva não estão aptos a assumir responsabilidades pesadas e grandes deveres, e geralmente falham, mais cedo ou mais tarde, até nos deveres vulgares da vida, como gestão da sua própria família ou negócio.

(…) Aquele que aprende a subjugar e a controlar os seus pensamentos turbulentos e errantes torna-se mais sábio a cada dia que passa.»

O direito à liberdade de expressão traduz a autonomia, a liberdade e a dignidade de cada ser humano e, por este motivo, não deve ser limitado. Todavia, a intolerância, o ódio, a ignorância, a discriminação e qualquer discurso preconceituoso ou ofensivo deve ser suprimido, para dar lugar a expressões ponderadas, de respeito, de solidariedade e de empatia.