À deriva

Agarro no volante do carro e começo a chorar, desalmadamente, todas as angústias deste e de outro mundo, as minhas, as dos outros, as do antes, do agora e do depois. Choro sem motivo e por todos os motivos do mundo.

_“Tá tontinha? Pá frente! Vá força, não sabe que tem de ir trabalhar?”

_“Bebe uma garrafa de vinho que isso passa”.

Choro por todas as frases do mundo, por pedir ajuda e nada, nada…

Carrego no botão da ignição, catatónica, de lágrimas esgotadas, cara inchada, lábios salgados, nariz cujo conteúdo nem consigo aspirar, escorre, escorre livremente como o rasto de todas as minhas dores.

Acelero, avanço como estou, sem saber para onde vou, à deriva, em piloto automático, sem saber onde estou, porque vou por ali, afinal não me guio, guiam-me os fantasmas do passado, o bullying na escola, as frases que ecoam na minha cabeça e abafam o som da música dos “The Smith” que passa na minha playlist conectada ao telemóvel. O som está alto mas, na minha mente outra nasce e começo a balbuciar: “Diz-me que solidão é esta, que levas no teu olhar…eu estou sempre ausente e não conseguem alcançar”. Canta António Variações, incompreendido, difícil de se aceitar, criticado, excêntrico, diferente, uma pessoa, personificação da solidão, do “burnout”, da desconfiança plantada pelas pessoas que passaram pelo sulco da minha vida, com inseguranças físicas, mentais, já não aguento mais.

Olho para o espelho, estou gorda, não consigo apertar o fecho, transpiro, estalam-me os ombros de tentar alcançar o fecho nas costas, parte-se a unha do polegar. Parte-se tudo à volta, não choro, porque chora todo o meu corpo cada poro, cada gota de suor.

Como mais um chocolate, porque não vale a pena, come… come… lambuza-te.

Continuo à deriva, não sei para onde vou, não sei onde estou. Vou parar aqui. Estou à beira mar, que bate ruidosamente contra as rochas, que respinga dançando com indiferença, à gaivota que a sobrevoa, ao caranguejo que se agarra, ao peixe que nada contra a corrente, a mim.

Tenho várias hipóteses: contemplo o horizonte a prestar atenção nas frases na minha cabeça, ouvindo uma canção, mas cantando outra; volto para casa onde tudo se repete, tudo se repete, tudo se repete, tudo se repete; posso acelerar e ir ter com o mar, ali ficar, acabar, escuridão, silêncio, fim.

Fim, é o fim. E destravo o carro, acelero e entro no crepúsculo da vida que, em breve terminará. Acabou.

Esta é história de uma pessoa qualquer, eu, tu ele, nós, vós eles. Mas, ninguém está só, um amigo no café, um professor na escola, um colega de trabalho, um familiar, um profissional de saúde. Todas as vidas são diferentes, mas todas são preciosas.

“Isto não é o fim, nem sequer é o começo do fim, é, se calhar, o fim do começo”. W. Churchill.