Marcelo, o popular

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, é o agente político que goza de maior popularidade no País. Pouco importa saber se Marcelo concorda com tal classificação, ou até se a tem por justa já que, segundo o próprio, nunca procurou ser popular. Por conseguinte, como tem sido repetido à saciedade, a popularidade não dimana do poder moderador de que dispõe o Presidente – isto é, a popularidade é um complemento ao verdadeiro exercício das suas competências de direção política, conferindo-lhe, por essa via, uma autoridade especial; é, por essa razão, determinante que Marcelo mantenha intacta essa autoridade, ora para se pronunciar, ora para emitir recomendações políticas. Ainda que Marcelo opte, ultimamente, pelo direito ao silêncio.

Vejamos: Marcelo está no segundo mandato presidencial, já não pode ser candidato outra vez, por que motivo teme a maioria absoluta do Primeiro-Ministro? Nós respondemos: Marcelo acha, desde há muito, que António Costa, Primeiro-Ministro, é invencível. Tem igualmente sido entendimento de Marcelo que não tem, nem terá, força política para o enfrentar. E, por tal facto, socorreu-se do proverbialmente dito: “Se não os podes vencer, junta-te a eles.”

Consequentemente, Marcelo está, como sempre esteve, dependente da esquerda portuguesa. Aliás, foi com ela que venceu a primeira eleição. E consolidou a segunda. De igual modo, Marcelo nunca acreditou que o PSD fosse capaz de voltar a breve trecho ao poder, e, por isso, nunca sequer se preocupou em agradar à sua área política de origem. Fê-lo, verdade seja dita, por sua alta recreação. Agora, passados quase sete anos de convivência à esquerda, deseja que Montenegro se cole à popularidade que granjeia junto da população portuguesa, imitando Costa, que segundo Marcelo, fez isso desde sempre. Salvo o devido respeito pelo Senhor Presidente da República, que é muito, só um apedeuta poderia acolher uma sugestão política desse calibre. O PSD-Nacional ainda vive a angústia da saída de cena de Passos Coelho (será que algum dia recuperará da síndrome do abandono?). Para além disso, o PSD-N ainda está à procura de um rumo estratégico no País. Seria, pois, um erro político palmar se, porventura, Montenegro, orientasse a sua ação política na sombra de Marcelo ou de Passos Coelho. O que diria o País? Montenegro está omisso na matriz? Não ambicionará ser um “primus inter pares”?...

Na verdade, o que Marcelo deseja, mas não diz, é tão somente ter um braço armado político – no caso, o PSD – que o proteja no exercício da ação presidencial. Os socialistas portugueses são portadores de um imenso poder, e, tal, assusta sobremaneira o Presidente. É curioso notar que Mário Soares, por seu turno, nunca teve medo de Cavaco Silva e fez-lhe a vida negra - combatendo vigorosamente a sua maioria absoluta.

Entretanto, no PS, os candidatos à sucessão perfilam-se. Com o caos político instalado no País (na saúde, na habitação e no preço dos combustíveis), o Primeiro-Ministro, mais dia, menos dia, pode tirar bilhete para a Europa. E Marcelo, o que fará? Convidará Pedro Nuno Santos para se lhe juntar? É que, como já se percebeu, as notícias sobre a morte política de Pedro Nuno foram manifestamente exageradas. E temo-lo visto. Combate não só no boxe, mas, sobretudo, na arena política. E com Marcelo presente, hiperativo e centralizador, fica a pergunta: Será que a cola de Marcelo fixará vitórias eleitorais do PSD no futuro? Quand fera-t-il jour, Montenegro?...