Saber sair

Gosto da ideia de compararmos as relações prolongadas a seres vivos. As relações não são estáticas. Não são um vínculo contratual. As relações existem para além da lei e não é a lei que as sustenta.

Podemos falar de relações de amizade, de amor e intimidade, mesmo até de relações de trabalho. Todas elas comparam-se com os seres vivos no sentido em que nascem, crescem, adoecem e morrem. Também precisam de ser alimentadas e higienizadas. Da mesma forma que se não tomarmos banho vamos cheirar mal, também nas relações se não mantivermos a higiene necessária, elas acabam por cheirar mal.

Começamos pelas relações de trabalho. Atualmente, pela natureza das empresas, da economia e tantas outras razões, os trabalhos não são para a vida. Muitas foram as pessoas traídas pelas empresas em que trabalharam a vida toda e faliram ou foram despedidas em momentos da sua vida em que era difícil encontrar um novo trabalho. As empresas sugaram a sua juventude e quando já não havia nada para dar, foram postas na rua. Os mais jovens não querem viver assim, não querem perder a sua vida e saúde para as empresas. Criaram-se os nómadas laborais e até os mais recentes digitais. Mudar de empresa é ganhar experiência, mudar de empresa é lutar por um futuro melhor.

Esta leveza descrita no trabalho, é também a leveza de muitas relações afetivas. Mas tal como por vezes ficamos agarrados a relações tóxicas, também a incapacidade económica ou de outra natureza para terminar um contrato laboral causa sofrimento. Assim, criou-se o estilo de trabalho “quiet quitting”, desistir ficando ou desistir de mansinho. Trata-se de um fenómeno novo nos países anglo-saxónicos, mas bem conhecido no nosso país, da insatisfação laboral. Esta forma de trabalhar é simplesmente fazer o mínimo obrigatório para manter o vínculo laboral, sem fazer nada mais para impressionar, crescer ou modificar o resultado do seu trabalho ou qualquer outra estrutura da empresa.

O mesmo também ocorre nas relações afetivas. Nas crises das relações, quando elas adoecem, temos vários caminhos para escolher, ficar e sair são a dualidade. Também existe o ficar e sair com outros e o ficar só por ficar. Numa relação a dois, uma pessoa é mais cuidadora que a outra. Depois de anos a cuidar, fica sem forças. A outra pessoa em vez de cuidar, começa a cobrar. Afinal, só estava habituada a ser cuidada. A pessoa sem forças e agora a ser destruída pela cobrança, fica ainda pior. Socialmente não é aceite terminar relações prolongadas, é visto como um falhanço. A seguir ou a pessoa adoece por exaustão ou escolhe um outro caminho. O que nos esquecemos é que a pessoa traída é a pessoa que no momento que precisava, foi pisada. Mas a sociedade só vê a traição da pessoa que fica, mas sai com outras. Claro que é traição, mas afinal o que é trair? Onde começa a traição? Na minha opinião, a traição começa quando a pessoa começa a cuidar dos outros sem cuidar de si. Ao fazer isso, inicia a avalanche de acontecimentos que acabam no fim da relação. Ou mantemos a relação saudável connosco e com os outros, ou condenamos qualquer relação, mesmo antes dela estar condenada.

Mas quando uma relação está morta, é importante terminá-la. Os mortos têm de ser enterrados ou cremados. As relações também. Manter uma relação depois de morta, é como tentar ressuscitar algo que já morreu. Temos de fazer as pazes com o nosso “falhanço” e seguir em frente. Infelizmente a incapacidade das pessoas aceitarem este conceito básico, termina em situações de violência psicológica e física, quer no trabalho, quer em casa.