Espelho meu, espelho meu…

São cada vez mais comuns os péssimos exemplos de comportamento nos estádios em Portugal. Quer dentro das quatro linhas, quer sobretudo fora delas. Ainda este fim de semana registou-se mais um caso, em todos os sentidos, lamentável e que só ajuda a afastar ainda mais as famílias dos estádios de futebol. 

Um adepto vestido com a camisola do FC Porto com a filha ao colo foi continuamente insultado por adeptos do Estoril (felizmente separados por uma vedação) e teve de se afastar após intervenção dos seguranças. O portista estava com a sua filha, também ela com uma camisola do clube vestida, que ficou a chorar, assustada. Basta olhar para o vídeo disponível nas redes sociais para ficar com o estâmago às voltas. A este caso junta-se o outro da criança que foi obrigada a despir a camisola que trazia vestida (do Benfica) para entrar para uma zona reservada aos adeptos da equipa da casa, em Famalicão. Já lá dentro, o pai desafiou as autoridades, tentando vestir novamente a camisola ao filho. A polícia fez o seu trabalho e alertou o pai de que tinha de cumprir as regras do promotor do evento, pelo que a criança permaneceu em tronco nu durante o resto da partida.

Eu não vou aqui discutir se as regras são válidas ou não, especialmente no segundo caso, até porque irá existir quem defenda o mérito disto tudo, quem ache que isto tudo é um disparate, e quem se esteja literalmente a marimbar. Na realidade estes casos são apenas um reflexo de um problema cultural/social do nosso país e que se tem vindo a agravar nos últimos anos. 

A violência no futebol tem se propagado por todo o país, dos mais novos aos mais velhos. E os números têm que obrigatoriamente ser matéria de reflexão. A título de exemplo, desde 2016 a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol registou mais de 150 agressões a árbitros de futebol e futsal, sendo que a esmagadora maioria dos casos de violência aconteceram nos campeonatos distritais e que mais de metade nas camadas jovens.

Isto significa que são os jovens os grandes “obreiros” de toda esta violência registada. O que é deveras preocupante. Mas a culpa será verdadeiramente deles? Ou será necessário que apontemos as baterias para a verdadeira raiz do problema? De que esses jovens estão a receber um mau exemplo dos mais velhos, quer dos profissionais da indústria do futebol, quer dos próprios pais.

Se no que concerne aos jogadores de futebol profissional facilmente se entende o porquê: são ídolos aos olhos dos mais novos e o seu comportamento, bom ou mau, é imitado pelos seus jovens fãs. Se esta é uma responsabilidade que todo aquele que tem exposição pública tem de exercer diariamente (e daria um artigo só para este tema), porém, para quem acompanha o futebol jovem, facilmente percebe que os pais são aqueles que pior exemplo dão. Nas bancadas, proferindo insultos aos árbitros, aos adversários (sejam crianças ou adultos) e, por vezes, ao próprio treinador, isto quando não se envolvem em agressões físicas com outros pais.

E qual a causa destes comportamentos? A meu ver, duas razões essenciais: ou querem que o seu filho seja o próximo Cristiano Ronaldo ou porque vêm no seu miúdo uma forma de viver o seu sonho (falhado) em ser jogador de futebol profissional. Muitas vezes não olhando a meios para atingir o fim desejado. E tudo isto torna-se um problema para a formação e, assim, o resultado é que acabamos por formar mal os nossos jovens atletas. Incutimos-lhes demasiada competitividade e uma sede de vencer exagerada desde muito cedo. Acabamos por ensinar os jovens jogadores a gostar de ganhar e não a gostar de jogar futebol.

Depois justificamos que estes comportamentos nocivos são do “calor da emoção”, do clássico “se fosse o teu filho” e que somos todos humanos. Mas ao normalizamos estas atitudes ou ao tentarmos esquecê-las, perpetuamo-las e fazemos com que as crianças achem que isso é normal e aceitável.

Por fim tornamos as pessoas (pais e filhos) menos tolerantes ao fracasso e, no caso do futebol, à cruel realidade que a maior parte não irá atingir o sonho de ser futebolista profissional. E, na falta de ferramentas para saber gerir a desilusão, o mais fácil é imputar a responsabilidade a uma terceira pessoa, seja dirigente ou outro concorrente, sendo este o alvo de toda a fúria e o veículo de deposição de toda a amargura e raiva. Da frustração à violência, a linha que separa é muito estreita. O que daí advém é fruto de pais que não sabem estar e que passam esse exemplo para os filhos, que passam a também não saber estar. Nem no futebol, nem na vida.

Mas não se iludam. O futebol é apenas um reflexo da sociedade em que nos inserimos. É uma pequena galáxia num universo maior. Mais perigoso e mais volátil. Com pessoas cada vez mais frustradas, iludidas, pouco tolerantes, pouco pacientes e cada vez mais extremistas. Afinal, alguém no seu perfeito juízo consegue justificar o que se viu no Estoril? Que, na prática, acaba por dar razão às regras impostas em Famalicão? Vemos estas irracionalidades todos os dias nas mais pequenas coisas. Podemos apontar o dedo a quem quisermos: aos dirigentes, aos políticos, aos polícias, aos professores, aos legisladores, aos culpados do costume, mas no final do dia só o espelho nos dirá a verdade. Mas cuidado. Podemos não gostar da imagem que nos é devolvida.