Mal injusto

“A escravatura moderna aumentou em todo o mundo nos últimos anos”. Não sou eu que o digo. É um relatório da ONU. “Cerca de 27,6 milhões eram pessoas submetidas a trabalhos forçados”. Não me espanta. Antes pelo contrário. Julgo que se esqueceram de contabilizar outros tantos. É que é raro encontrar alguém que trabalhe por gosto. A sério. A maior parte trabalha porque precisa. Não tem outro remédio. É a vida, dizem!

Porém, ainda segundo o mesmo relatório, os contrariados não se ficam por aqui. “22 milhões casados contra a sua vontade”. Aqui sim. Admito a minha admiração. Tantos? Não diria. Eu, graças a Deus, não me incluo nessa lista. Hoje estou casado de livre e espontânea vontade. Hoje! Já ontem assim-assim. Anteontem perguntava-me que mal tinha feito eu para merecer tamanho castigo. Trás-anteontem? Não interessa. O que interessa é o presente e por isso peço à ONU que rectifique. Incluam-me fora dessa. São só 21 milhões novecentos e noventa e nove mil e novecentos e noventa e nove descontentes.

Desgostosos, desgostosos devem estar os alunos que terminaram o 12.º e, por azar, entraram numa faculdade fora do ilhéu. É que se o problema inicial era conseguir média, agora passou a ser encontrar um teto. Pois é! Ainda há dias um amigo meu enviou-me uma mensagem em que me questionava se eu sabia de algum T2 em Lisboa barato. Pensei que fosse engano. Toda a gente sabe que, de algum tempo a esta parte, a palavra “barato” e “Lisboa” não cabem na mesma frase. E quem diz Lisboa, diz outra cidade qualquer…. Está tudo louco. Imagino que o meu pai esteja a pensar que esta era a melhor altura para eu ser estudante. Ficaria a dormir na faculdade. Sempre era a maneira de lá pôr os pés. No entanto e naquela altura, mais uma vez andava à frente do meu tempo…. Privilegiava o tele-estudo. Ou o estudo virtual. Sei lá! O que eu sei, e ninguém me pode tirar, é que deu para fazer em 5 anos um curso que, à partida, era de 6. Ora bem, e agora fazendo contas por alto: 12 rendas, 12 mesadas, 12 reforços de mesada e 12 reforços de reforços de mesada…. Vejam só o que o meu pai poupou! Afinal, já nessa altura, ele era contra os subsídio-dependentes. A cana ele não se importava de dar! Já o peixe… Não vem que não tem.

Quem também escusa de vir de garfo é o Lidl. Chegou chegando, mas não teve muita sorte. Comprou parte do largo Severiano Ferraz. Assim mesmo. À grande. 5 milhões de euros pelo quarteirão da Madeira Wine! A ideia era fazer ali um supermercado, mas o vereador barrou. Deu parecer negativo. Não satisfeita, a cadeia alemã, recorreu hierarquicamente. Que é como quem diz, “vou falar é com quem manda nisto tudo”, com aquele ar característico de quem julga que intimida quem está a obstaculizar o seu intento. Não condeno. Quem nunca? Resultado?! O do costume. Novo parecer negativo, embrulhado em papel de convite para rumarem a outras paragens. Bem feito. Siga para o Amparo ou para o Poço Barral…

Para Santana não. Para Santana não, porque para lá vai uma empresa farmacêutica. São 6,5 milhões de euros reservados para o cultivo de canábis! Pessoalmente acho óptimo. Mas há gente que não pode ver nada. Copia logo tudo. E segundo as notícias, a concorrência está pior que nunca. Não há dia que não apanhem alguém com uma ou duas plantinhas em casa. Dizem que é para consumo próprio. E eu não duvido. Vejo muitos alucinados por aí. Os coitados depois ficam fora de si. Não respondem por eles. Vandalizam, mas é sem maldade. Roubam, mas sem intenção. Matam, mas sem querer! Ai ai (acompanhado de um suspiro). Que saudades dos meus tempos de miúdo. Do tempo em que brincávamos aos polícias e aos ladrões a sério. Varríamos a Pena a pente fino. Era o Godzila. O Milhena. O Dizzy. O Chinês. O Márcio copo de leite. O Dack. O Manchinhas. O Michael sobrancelhas. O Samu. O Zeca. E eu sei lá mais quantos. Todos juntos éramos a BIR. O transporte dos meliantes era feito de arrasto. A esquadra ficava “no muro”. Ali, mais ou menos, a meio da Rua Nova Pedro José de Ornelas. A sala de detenção, essa, era num silvado que tinha por baixo ou numa casa devoluta que tinha em frente. Depois de aquecidos e identificados eram devolvidos à sociedade. Com termo de identidade e residência. Enfim… Velhos tempos. 

Ps, da próxima vez que julgarem que a festa de um casamento cigano dura muito tempo, pensem num funeral real inglês. Bye-bye.

 

Pedro Nunes escreve ao domingo, todas as semanas.