Funchal a andar para trás.

“Pensar Global, Agir Local". Uma frase com origem mais concreta no planeamento urbano que, por mais vezes que se repita, tem de sair do papel e traduzir-se em ações concretas.

Uma frase com um grande significado e que não pode ser apenas um slogan bonito. Escrevo sobrevoando metade da Europa a caminho da nossa Pérola do Atlântico, vinda de Estrasburgo. Centro europeu que recebe o Parlamento Europeu durante doze semanas ao longo do ano, geralmente uma em cada mês, para as sessões plenárias. Foi uma semana marcada pelo discurso do Estado da União, historicamente proferido ao início do ano legislativo pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen. Um momento relevante que desvenda as linhas programáticas da Comissão Europeia para o próximo ano. Vários pontos a destacar de um discurso de cerca de uma hora, parco em medidas concretas na esfera social, mas com importantes destaques para a tripla crise que estamos a atravessar: a crise ambiental, a social e a económica. 

É difícil prever o que acontecerá... tivemos a pior pandemia dos últimos 100 anos, e mal estávamos a começar a visualizar a luz ao fundo do túnel... uma guerra explode no nosso quintal com graves consequências e que levaram ao número recorde de inflação a subir, que não se registava há 30 anos.

A imprevisibilidade do futuro tem sido respondida com medidas e instrumentos concretos para minimizar o seu impacto direto e indireto nos cidadãos, nas famílias e nas empresas. Avizinham-se tempos difíceis, mas é essencial não perdermos o foco de tentar salvar a nossa casa, o nosso planeta. O aumento da temperatura está já a 1,1 graus celsius acima dos valores pré-industriais, muito perto dos 1,5 graus celsius que queremos evitar atingir. O nosso modo de estar e viver irá alterar-se, para uma economia mais circular, mais próxima e de maior sustentabilidade, respeitando os limites dos recursos da Terra. Em 2050 queremos uma União Europeia neutra em emissões de carbono. Para que esta transformação aconteça estamos a desenvolver o maior pacote legislativo da UE até à data e a liderar a nível mundial o combate às alterações climáticas. A ação terá inevitavelmente de ser realizada a todos os níveis, e de forma mais acutilante a nível local. Mas as notícias da última semana deixam qualquer Funchalense inquieto. 

Por opção, o Funchal "destruiu" recentemente um dos instrumentos do anterior executivo que promovia uma mobilidade mais limpa e saudável, no valor de 150 mil euros. Agora, chega-nos a notícia de que os postos de carregamento de veículos eléctricos em lugares públicos passam a ser pagos, numa altura em que os incentivos para veículos de zero emissões estão a aumentar exponencialmente por toda a Europa. Medidas que deixam, naturalmente, o Funchal para trás. Numa altura em que a poluição do ar é responsável por 10% de todos os casos de cancro na Europa; em que a maior parte das cidades e centros urbanos querem tirar os veículos de combustão interna, responsáveis por cerca de 15% das emissões de carbono, das suas ruas; em que o orçamento a longo prazo da UE 2021-2027 estipula que 30% da despesa total da UE destina-se a projetos relacionados com o clima - o Funchal recua. Se bem se recordam, a mobilidade foi uma das bandeiras da última campanha das autárquicas. Mas qual o espanto, quando volvidos 11 meses de um executivo que tem como slogan "Funchal sempre à frente", constatamos que afinal a capital da nossa região está efetivamente a andar para trás, em tendência contrária do resto das cidades europeias. Somos parte integrante da União Europeia que quer ser o guia para que outros países diminuam as suas emissões, e devemos dar o exemplo nas políticas adotadas, sob prejuízo de ficar para trás. Numa altura que requer um esforço hercúleo, o Funchal deixa de fazer parte do pensar global e atrasa a vida dos que vivem e sentem a cidade. O Funchal está a andar para trás. E quem perde somos todos nós.

 

Sara Cerdas escreve ao domingo, de 4 em 4 semanas.