O caixão da rainha

A rainha Isabel II morreu. Paz à sua alma… Tenha a tranquilidade que tem faltado a todos os que acompanham o caixão onde está depositado o seu corpo desde que o Palácio de Buckingham anunciou o falecimento da monarca. Já lá vão nove dias.

Dias a fio de cobertura noticiosa ininterrupta que atingiu níveis agoniantes e pouco têm a ver com a missão de informar, resvalando, isso sim, para o lado voyeurista da vida (neste caso morte) da monarquia inglesa.

Pensar-se-ia que o quotidiano nacional não seria afetado pelo que acontece no Reino Unido apesar da simpatia que muitos nutrem pela falecida monarca. E assim deveria ser. Mas quis quem nos governa que o luto britânico também se refletisse por cá e a rainha vai ter uma homenagem idêntica à que mereceram Mário Soares, Jorge Sampaio, Amália Rodrigues ou Eusébio. Três dias de luto nacional em honra do nosso mais antigo aliado. Surpreendente.

Por certo, nem os ingleses esperariam um luto de 72 horas de uma nação ‘amiga’, que há bem pouco tempo teve de sofrer para estabelecer contacto com as autoridades britânicas de modo a lembrar que a Madeira não fica no interior do Continente e que as sanções cegas impostas em tempo de pandemia não faziam sentido. É o que temos. O respeito funciona apenas num sentido.

Uma espécie de “faz o que te digo e nem vale a pena ousar questionar o que quer que seja”. Mais ou menos como acontece com os estudantes universitários. As viagens ‘escaldantes’ em períodos críticos são já um habitué. Os preços disparatados praticados pelas companhias aéreas estão a tocar no teto salarial encontrado no âmbito do subsídio criado. E por mais que nos queixemos, o filme repete-se sem inversão possível.

A desigualdade de tratamento entre a Região e o todo nacional também se constata no plano autárquico. Lisboa, por exemplo, oferece agora passes gratuitos a todos os estudantes residentes. Ora, os madeirenses estão excluídos. Pois, por terem de possuir residência fixa na Madeira para beneficiar do subsídio de mobilidade aérea, ficam obrigados a pagar transporte terrestre na capital. Por cá, ao invés, são elegíveis para o subsídio de mobilidade todos os estudantes deslocados que residam no continente ou Açores. É o que temos. O respeito funciona num sentido.

Respeito é o que exigimos, também, de quem considera fastidioso ou excessivo o trabalho que temos vindo a efetuar sobre as acusações de crimes sexuais que ensombram um professor do Conservatório e a própria instituição.

O acusado já não foi integrado no quadro de docentes no ativo no arranque deste ano letivo. Continua suspenso. E a investigação prossegue. Assim como prosseguirá o compromisso do JM com a verdade, depois de reiteradas histórias e relatos de pais e alunos apontarem responsabilidades ao professor e, indiretamente, ao próprio estabelecimento. Se há culpa, que se apure. Que se chegue a uma conclusão. O pior que pode acontecer é percebermos que onze anos depois da primeira acusação pública, nada se fez… uma vez mais. Porque o tempo pode sarar feridas, mas as cicatrizes não desaparecem, como demonstram as vítimas deste conturbado processo.