O som dos tambores

Ao longo dos últimos anos, Joe Mulhall, um ativista da HOPE not Hate (HNH), tem conseguido infiltrar-se sucesso em alguns movimentos e organizações da extrema-direita mundial.

Dessas incursões resultou um livro, publicado no Reino Unido em 2021, e cuja edição portuguesa foi lançada pela Temas e Debates em junho deste ano com o título “Tambores ao Longe”, que recomendo vivamente.

O título percebe-se logo na introdução. Segundo o relato do autor, nas concentrações de extrema-direita, à medida que se aproxima a hora marcada, é comum começar a ouvir-se o som abafado de um tambor a marcar o ritmo dos cânticos: «Nas manifestações da extrema-direita ouvem-se, muitas vezes, os tambores à distância antes de eles poderem ser avistados».

Em 2020, cerca de um quarto da população mundial vivia em países com governos de direita radical, todos eles democracias, pelo menos nominalmente: os EUA de Trump, o Brasil de Bolsonaro, a Índia de Narendra Modi, a Polónia de Duda e Morawiecki e a Hungria de Orbán. Noutros países, tais como Bulgária, Estónia, Itália e Eslováquia, há partidos da direita radical que integram governos de coligação ou que obtiveram representações parlamentares expressivas, como sejam a Dinamarca, Finlândia, Suécia, Alemanha ou Espanha. Noutras zonas do globo com democracias menos estabelecidas, movimentos de inspiração nacionalista ou baseados num fundamentalismo religioso controlam (total ou parcialmente) países como o Afeganistão, o Irão ou o Iraque.

Paradoxalmente, os movimentos nacionalistas que, por definição, seriam muito autocentrados, têm uma grande capacidade de articulação internacional e transnacional e até mesmo de angariar fundos provenientes de fontes comuns. Os Nacionalismos tornaram-se Globais. Muitos destes partidos são o resultado da institucionalização de movimentos sociais orgânicos, fruto de um sentimento de descontentamento e de falta de políticas capazes de responder às consequências da crise económica de 2008, mas também de uma tendência de globalização económica e social, associada à deslocalização de produção para zonas do globo onde democracia, direitos humanos, igualdade e direitos laborais são pouco mais do que palavras vazias.

Por outro lado, há uma longa tradição, cultural, de que a palavra escrita ou que é transmitido pelos media, seja importante, verdadeira ou ficção claramente identificada como tal. O surgimento das redes sociais e da rápida disseminação de suposta informação deliberadamente falsa, indistinguível da opinião, torna-nos muito mais fáceis de manipular.

Finalmente, os seres humanos são (somos) muito vulneráveis à falácia da simplificação: Gostamos de soluções simples. Por muito complexos que sejam os problemas, é-nos fácil acreditar que possa haver uma solução simples e quanto mais complexos mais depressa estamos dispostos a fazê-lo. E uma das soluções mais simples é atribuir a culpa.

E é nisso que a extrema-direita é muito eficaz: a culpa é do outro! O privilégio social pode ser definido como o direito de haver sempre quem seja pior o que nós, só por ser quem é. Se toda a gente tiver os mesmos direitos independentemente da origem social ou geográfica, do género, da cor da pele, da identidade sexual, quem é que resta para ser pior do que nós? Para onde foi esse nosso direito, esse privilégio? Quem no-lo tirou? O outro! Aquele que não é como nós, que somos pessoas de bem, claro.

Como podemos, então, combater quem nos enfraquece, dividindo-nos, apontando o caminho que nos tornará mais fortes? A Professora Cristina Flesher-Fominaya, propõe que não nos esqueçamos de defender intransigentemente os valores e direitos democráticos. A democracia não se resume ao voto, ao dia das eleições. A democracia exerce-se desde o dia de uma eleição até ao dia da eleição seguinte, é um processo contínuo e inacabado. Não podemos normalizar o ódio, deixar que seja aceitável o discurso do ódio e da discriminação no Espaço Público.

Quem tem responsabilidades políticas, executivas e de fiscalização, no governo e na oposição tem uma missão: há que garantir a toda a população condições de vida digna, de modo que ninguém que esteja numa situação de fragilidade esteja vulnerável ao desejo de culpar outras pessoas desfavorecidas pela sua situação. Caso contrário os inimigos da democracia continuarão a alimentar-se desse descontentamento e a incentivá-lo. Talvez assim consigam reinar sobre quem dividiram.

O som dos tambores vem de cada vez mais direções. Cabe-nos mantê-los ao longe, defendendo uma democracia humanista, digna, em que se proteja e respeite as minorias que nos fazem maiores.