Procrastinar

“Procrastinar” é uma palavra interessante e diferente. Pode dar uma aura de maior cultura a quem a usa, mas ela mais não significa do que a comezinha palavra “adiar”.

Os dias de verão apelam a essa preguiça saborosa que nos leva a deixar por fazer coisas que até são importantes. A procrastinar, portanto. Estava eu neste estado de espírito meio amorfo, pensando que agora é que nada me ia tirar dessa pastelice confortável, quando o meu cérebro, ao longe, começa a registar algo que surgia nos órgãos de comunicação social, a propósito dos incêndios. Então não é que constantemente diziam que no palco das chamas estavam não sei quantos homens? Ou que estavam 600 homens no terreno a combater mais umas quantas frentes de fogo? Só homens? Mas então as diversas corporações de bombeiros em todo o país não possuem mulheres nas suas forças? Pensei: com tanta urgência nestes combates brutais e perigosos, as chefias das corporações de bombeiros deixam as bombeiras no quartel? O que ficarão elas a fazer? A remendar mangueiras e fardas, que os orçamentos estão pela hora da morte? A polir capacetes e machadinhas? Sabia que tal não era possível, mas contactei pessoas envolvidas nestas lides e confirmei que nenhuma delas fica de fora dos combates. Fazem parte das equipas no terreno e combatem de igual para igual.

Foi então que percebi, o problema só podia ter a ver com a terrível, temível, apavorante, horrífica, pavorosa e assustadora ideologia de género. Só pode! Linguagem inclusiva? O drama! A tragédia! O horror! É muito melhor levar ao engano o público que nos ouve, vê ou lê, do que usar o masculino e o feminino. Não, que nós não somos dessas coisas perigosas que se ensinam na escola e que são a causa do fim do mundo, do descalabro em que tudo isto está a cair! Dar visibilidade ao trabalho que as mulheres fazem? Nãããããoooo!!! Isso é perigosamente típico da esquerdalha! Então não se vê logo que estávamos a usar a palavra “homem” com agá grande???? Gasp, gasp, cof, cof, cof… Desculpem, engasguei-me.

Anotem:

– Usar as palavras bombeiras e bombeiros, professoras e professores, médicas e médicos, canalizadoras e canalizadores, mães e pais, filhas e filhos, alunas e alunos, trabalhadoras e trabalhadores, mulheres e homens, por exemplo, ajuda a eliminar a discriminação e combate os estereótipos. Quem as ouve ou lê percebe claramente quem está a executar as ações, não inferindo erradamente que só os homens é que são o motor de funcionamento das sociedades;

– Colocar a forma feminina entre parêntesis, por exemplo: “enfermeiros (as)” menoriza a representação feminina. Já Lindley Cintra afirmava que a utilização dos parêntesis serve para “intercalar num texto qualquer indicação acessória”;

– O uso do masculino como referência ao que é universal já passou. A revolução também se faz na linguagem e ela reflete o mundo em que vivemos. Por isso há que alterá-la e evoluir.

A linguagem é uma das formas que serve para organizar o mundo e construir uma identidade social. Reflete o nosso pensamento e a nossa visão das coisas. Ela é o espelho de um contexto que respeita e inclui, valorizando a contribuição de todas as pessoas para a construção de uma sociedade mais justa e respeitadora dos direitos humanos. Se fica toda a gente incluída numa linguagem inclusiva? Não. Há muita gente que, mesmo assim, se sente excluída, daí a importância de conhecer as razões e debater o assunto. Mas isso não é razão para tornar o papel das mulheres intencionalmente invisível, usando o universal masculino. Experimentem fazê-lo no feminino e observem as reações.