O caso de Archie

No dia 7 de abril, Archie Battersbee, uma criança inglesa de 12 anos, foi encontrado inconsciente pela mãe, depois de, alegadamente, este ter amarrado o pescoço com uma ligadura até desmaiar. A mãe acredita que foi o resultado de um desafio na rede social Tiktok, denominado de “Blackout Challenge”, cujo objetivo é que os jogadores apertem o pescoço até ficarem inconscientes devido à falta de oxigénio. Desde então esteve em coma no The Royal London Hospital.

Após vários requerimentos e deliberações, no dia 25 de julho foi decidido pelo Supremo Tribunal de Justiça inglês que os médicos podiam legalmente parar de fornecer o tratamento de suporte de vida a Archie. A criança foi diagnosticada com “morte cerebral” pelos médicos do Hospital, que recomendaram que o seu suporte de vida fosse desligado, assim como o ventilador que permitia que respirasse. Os profissionais de saúde consideraram que só estava vivo devido a um cocktail de medicação e aos meios artificiais utilizados.

Não conformados, os pais de Archie apelaram ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para que fosse adiada a retirada do suporte artificial de vida, mas o seu pedido foi rejeitado, pois o tribunal europeu recusou-se a interferir com decisões dos tribunais nacionais. Na quinta-feira, os pais pediram que Archie fosse transferido para uma unidade de cuidados paliativos, sendo que a mãe revelou que a família ainda acreditava que era possível Archie recuperar a consciência e porque, em última circunstância, passar os últimos momentos em privado, algo que o hospital não garantia. Porém o seu pedido não foi autorizado, tendo o Tribunal defendido que a transferência não era do melhor interesse da criança e apresentava riscos imprevisíveis e desnecessários, pelo que Archie ficaria internado no hospital até que fossem desligadas as máquinas. Ainda assim o Hospital acedeu a alguns pedidos da família, de forma a permitir que Archie morresse pacificamente e de forma privada junto dos seus pais.

Após uma batalha legal entre a família, o hospital e os tribunais ingleses, o suporte de vida de Archie foi desligado às 10h deste sábado. E dada a sua condição, Archie morreu pouco depois do meio dia.

O triste caso de Archie Battersbee é o melhor exemplo dos perigos da navegação online das nossas crianças. E, pelo meio, levanta uma questão ainda mais complicada que só por si daria outro texto: até que ponto se deve preservar a vida, quando ela está totalmente dependente das máquinas?

Ser desafiado para fazer qualquer coisa arriscada, para se dar a provar ou para ganhar fama, não é algo novo. O problema é que, com o advento das redes sociais, estes desafios começam a ganhar escala. De facto, quando várias pessoas começam a repetir a mesma missão e compartilhar o resultado nas suas redes sociais, o bite rapidamente atravessa o mundo, na crista das celebridades e influencers. A maior parte destes desafios são inofensivos, divertidos e até mesmo nobres em alguns casos. No entanto, há desafios na internet que propõem coisas bem arriscadas que podem, inclusive, causar a morte.

De facto, é cada vez mais comum assistirmos a vídeos de crianças, jovens e adultos, gravando-se a si mesmos, enquanto prendem seus corpos com fitas adesivas, engolindo imans, saindo do carro em movimento, enchendo a boca de comida enquanto pronuncia o nome do jogo, tentando comer polvos vivos, enfiando canela pela goela abaixo ou, como aparentemente foi este o caso, asfixiando-se com um cinto ou lenço, uma brincadeira que já levou mais de 90 crianças à morte só nos EUA.

As consequências potenciais de todos estes desafios, os que já se conhecem e os que ainda virão, são um alerta. Estas “brincadeiras”, para além de causar um estado de êxtase no desafiado, através das redes sociais soma-se a possibilidade deste conseguir fama, podendo assim facilmente contagiar muitas pessoas, particularmente crianças e adolescentes, transformando-se num movimento viral que, dependendo do risco, pode levar os seus desafiados à morte. Sendo certo que algumas plataformas nas redes sociais tentam estar cada vez mais preparadas para censurar conteúdos virais desse tipo (onde o YouTube é um grande exemplo disso), estar alerta, reconhecer os perigos da utilização das novas ferramentas, e conseguir perceber sinais nos nossos filhos, é um dever de todos nós, usuários, enquanto indivíduos, cidadãos e pais. De instruí-los, avisá-los, de fazê-los entender e compreender que há riscos que não valem mesmo a pena.

Até para evitar o desespero como o dos pais de Archie. E o de muitos outros pais a quem o destino lhes rouba a vida dos seus filhos. Para Hollie Dance e Paul Battersbee foi o fim de uma batalha legal perdida e o fim da esperança que um dia o seu Archie pudesse acordar, por algum milagre divino ou da ciência médica. Que a medicina lhes diga que o cérebro do seu filho morreu e que esta situação é irreversível. Que a justiça lhes diga que a decisão tomada é no melhor interesse da criança e de acordo com todos os parâmetros legais e pareces técnicos solicitados. A esperança é sempre a última a morrer. No fim fica a angústia de um pai e de uma mãe. Podemos censurar?

Olhem pelos vossos filhos. A vida é um sopro.