Histórias de um historiador – Rui Nepomuceno II

... perguntei-lhe, ao Rui, se fora discriminado pelos seus (parentes, amigos, clientes...) por se assumir comunista e do PCP e se por tal sofrera sanções e ameaças:

Nesse tempo, disse, antes do 25 de abril, ser-se comunista só na clandestinidade. Sobressaíam sobretudo as lutas unitárias anti-fascistas, e nelas um pequeno grupo que se reunia para ler o Avante, falar do partido e discutir a situação nacional e local. Só depois do 25 de abril é que foi possível afirmar-se como comunista e mesmo na instabilidade que ainda vingava naqueles "anos quentes" reunia-se em torno dos seus ideais com outros membros do PCP que, inclusive, tinham sido presos, como Ivo Ferreira, Mestre Henrique, Edmundo Tavares, entre outros, todos identificados e vigiados pela PIDE.

Ser comunista interferiu fortemente nas suas relações pessoais e profissionais. Era inimaginável que alguém o soubesse antes de 1974 – "eu não podia aparecer publicamente como comunista; nem a minha mulher sabia! Sabia, sim – e sabia muita gente da esquerda à direita - que eu era de esquerda e marxista, mas não que estivesse organizado no PCP".  A sua mãe, católica e monárquica, sofreu com a revelação – "disfarcei que era do partido tanto quanto pude e minha mãe soube-o mais tarde mas perdoou-me", assegura; os amigos ficaram perplexos e demarcaram-se, amigos da esquerda à direita pois nunca confundiu ideias políticas com a amizade, "não gosto de misturar as coisas", e perdeu toda a clientela enquanto advogado – ele que era bem pago à altura- e teve de se virar para a componente técnica criminal e, diz, "tive dificuldades com a família , foi um caso sério".

Curiosamente, antes disso, já tinha saneado da UPM (União do Povo da Madeira) de esquerda maoista ("foi o meu 1º saneamento e logo pela esquerda; o 2º foi como presidente do União", graceja), a primeira estrutura política que se criou na Madeira após a Revolução. Nesta, integravam-se vários grupos como o "grupo do Comércio do Funchal (CM)", "o grupo dos padres do Pombal" e o próprio. Porém, desconfiavam do seu envolvimento ao PCP, apelidando-o mesmo de "social-fascista", e avisado por Vicente Jorge Silva (VJS), dirigiu-se a uma reunião em que ultimaram: ou fazia autocrítica pública e saía do PCP ou era saneado, como aconteceu (curiosamente o saneado seguinte foi o próprio VJS...). "Em menos de um ano deram cabo do CM".

Na altura, foi a Lisboa, e falou com Blanqui Teixeira, do PCP e pô-lo a parte da situação política na Madeira – por um lado a UPM, esquerdista; por outro os sociais-democratas e "meia dúzia de comunistas" e decidiu-se criar a FPDM, uma Frente Democrática da Madeira, de onde saíram os primeiros dirigentes do PCP e do PS, na região. O grupo unitário que fora a eleições em 1969 foi-se desmantelando dando-se a primeira cisão aquando da preparação e organização do primeiro 1º de maio na Madeira – quando se foram "identificando" politicamente uns aos outros.

E seguiram-se ainda outros confrontos e perseguições pelos separatistas da FLAMA, mesmo que antes disso muitos lhe tivessem feito um "namoro à direita" – chegou a ser convidado para o Voz da Madeira, desde que não escrevesse sobre a autodeterminação das colónias e sobre a guerra colonial nem sobre a defesa e proteção do movimento sindical.  Foi ameaçado de linchamento; incendiaram-lhe o carro; houve quem o avisasse de um atentado (um "flamista", filho de um antigo cliente que ajudara a livrar-se da prisão); protagonizou fugas de grupos que o ameaçavam (e a outros comunistas) em comícios ou em circunstancias particulares, chegando mesmo a disparar para o ar para os dispersar ("embebedavam-nos e convenciam-nos que os comunistas queriam ficar com as suas terras").

E resistiu sempre, o Rui, para nos contar o seu lado da História. Pode perseguir-se um homem, mas nunca invadir-lhe os ideais!