Era o tempo das férias grandes

Acabadas as aulas, era o tempo das férias grandes. Livros de lado, mochilas arrumadas, lápis, canetas e cadernos em descanso. Tempo de férias grandes! Grandes mesmo… de dias menores com tardes e noites maiores. Grandes de amizades, cumplicidades, companheirismo e partilhas. Grandes de emoções genuínas na simplicidade do convívio entre conversas, risos e gargalhadas infinitas, sem faces, whatsapp`s, snapchat`s ou tik tok`s. Grandes num tempo que não se esgotava, num tempo que era nosso, vivido intensamente, já que o nosso espaço e o nosso mundo girava entre arraiais e conjuntos. Uma infinitude!

Do Estreito da Graça à Senhora do Loreto, não sem antes ter ido às Neves aos Prazeres e depois ter visto o São Francisco rumo aos Bons Caminhos da Vila. Geograficamente um mundo curto. Chegar à Ribeira Brava não era sempre nem para todos. O Funchal… o Funchal era o da Festa da Juventude, de dois em dois anos, o único momento em que ouvíamos bandas nacionais. Hoje, elas atropelam-se de concelho para concelho… gratuitamente… E nós?! Nós ouvíamos os conjuntos e nem sempre tínhamos o Vasco e os Galáxia. Se o arraial tinha festeiro e ele era rico, a coisa prometia. Caso contrário, era a banda, o conjunto, mais ou menos anónimo, e nós. Nós os da geração nascida pós 25 de abril, mas cuja mundividência ainda era muito semelhante à dos nossos pais. Nós que sonhávamos com um futuro melhor, que queríamos fazer o nosso concelho crescer e que nas escolas do Funchal nos mantínhamos unidos e coesos dizendo mais alto o nome da nossa terra, sem vergonha de assumirmos que tínhamos ido de camioneta e que demorávamos 3h para lá chegar.

Mas agora era o tempo das férias grandes. Era o nosso tempo! O tempo de sermos nós entre uma cerveja e um sumo, com um bolo do caco partilhado ou um pão com chouriço dividido, entre dedos lambuzados de gorduras. Creio que ainda não havia vírus nem bactérias…lol Eram os adros das igrejas, as pequenas praças e as ruas contíguas a elas. Eram as bandeiras, as flores e as luzes. Era o mato que cobria os mastros e libertava o cheiro a serra e a natureza. Eram as barracas, as garagens improvisadas para bares e os recantos que serviam de ponto de encontro ou de despedidas... Era uma multiplicidade de cheiros e odores, num misto sinestésico, que entranharam arraiais no nosso ser e para sempre nos fazem madeirenses das localidades, estejamos onde estivermos. Era tudo isto e mais isto, que não se exprime em palavras, mas que se vivia, sentia e dividia irmãmente, entre encontros e desencontros até ao próximo arraial.

Era o tempo das férias grandes, sem os professores que nos deixaram as lições para a vida. O tempo de nos conhecermos e de nos erguermos. O tempo de nos recarregarmos, construindo relações e comungando sonhos para nós e para o futuro da nossa terra. Sabíamos que elas, as férias grandes, iam acabar, mas que as nossas amizades e os nossos sonhos eram intemporais, como os arraiais, pois, fecundados pelas férias grandes, tinham vindo para serem maiores!