Turismo: pressões e falta de soluções

O aumento exponencial do turismo, tem sido, a par da temperatura, um dos “temas quentes” das notícias regionais.

É, de facto, inegável a importância deste setor para fazer face aos problemas de uma Região que desde há muito vive confrontada com a falta de investimento em outras áreas que permitam criar cenários que vão além da dependência do turismo puro e duro para nos desenvolvermos e crescermos.

Ao longo de muitas décadas, e até à atual crise da pandemia, este setor esteve em constante crescimento, e era previsível que, após superada a crise, existisse uma estrondosa recuperação do seu papel de impulsionador na nossa dinâmica económica, no aumento das exportações e o renascimento do seu papel positivo na redução do desemprego.

Mas é incontornável a necessidade de um debate com a devida seriedade sobre os efeitos do turismo massificado na vida da nossa população.

Infelizmente, o “boom turístico” não se limita às suas virtudes, acabando por existir um lado negro que se magnifica nos conflitos no custo de vida regional e no impacto nos recursos naturais.

A ponta do iceberg é, sem dúvida, a precariedade laboral e os baixos salários. Mas a especulação imobiliária que, amplificada pela pressão turística, segue à boleia dos novos hotéis e hostels e dos milhares de alojamentos locais que brotam quase por geração espontânea, um pouco por toda a Região, torna completamente incomportável a qualquer madeirense acompanhar a escalada dos preços. Hoje, qualquer casa modesta, é automaticamente reavaliada para preços de luxo, ficando vedada a qualquer madeirense que viva do salário mínimo ou médio.

Este é, aliás, o principal custo que contribuiu para o histórico aumento do custo de vida, que vem agravar as idas ao supermercado e à bomba de gasolina. Um aumento que, muito rapidamente, fez diluir a recente subida do salário mínimo.

Não estou, com isto, a criticar a vinda de turistas para a Região. É natural querermos defender um sector que constitui, atualmente, um dos pilares da economia regional e um dos principais sectores geradores da riqueza. Mas são necessárias estratégias políticas sérias de forma a garantir que a pressão turística não destrói os direitos da população residente.

Esta ótica tem, necessariamente, de ser transversal ao turismo nos espaços natureza. Em tempos, escrevi que o destino Madeira necessita de se reinventar, de forma a adotar novas estratégias de reposicionamento, captando novos nichos de mercado, como o turismo científico e o turismo ornitológico, e reforçando e protegendo os nichos já existentes no turismo de natureza, como o pedestrianismo.

Era (e é) necessária uma estratégia eficaz de monitorização destas atividades, visto que as atividades desenvolvidas em meios naturais podem colocar em perigo áreas sensíveis, como é o caso dos ecossistemas insulares. Era (e é) necessário ainda uma aposta na reabilitação dos caminhos reais e na requalificação de novos percursos que trouxessem um “balão de oxigénio” num turismo já de si sufocado por uma intensa pressão e com falta de opções para diversificar a oferta. Muito pouco foi feito até hoje!

Hoje, assistimos a carros turísticos “enfiados” pela vegetação nativa, destruindo plantas e deixando o solo de habitats de altitude a descoberto, assistimos a enormes grupos a caminhar sem o acompanhamento de guias e fora de trilhos, pisoteando espécies importantíssimas, numa grande horda turística que levou a um súbito esquecimento das “lições” trazidas pela pandemia. Fomos vítimas, uma vez mais, de medidas governativas avulsas e oportunistas, que adiam a responsabilidade e o empenho regional em cumprir as obrigações europeias para minimizar a perda de diversidade e ativar estratégias de conservação.

O paradigma pode e tem de mudar. O planeamento turístico das áreas de destino é fundamental e há que apostar em produtos de valor acrescentado à oferta atual de turismo dirigido aos visitantes da região. É necessário diversificar o produto turístico, bem como o mercado de procura turística. Mas, acima de tudo, é necessário que as políticas públicas tenham em consideração que não podemos limitar a nossa sobrevivência económica à monocultura do turismo. O turismo é, como verificamos com a pandemia, uma indústria que depende muito da conjuntura económica internacional e, como tal, é necessário dividir o risco. Neste complexo assunto, o pensamento de inúmeros conceituados economistas acompanha a sabedoria do Povo: apesar do turismo ser a nossa “galinha dos ovos de ouro”, “nunca se devem pôr todos os ovos no mesmo cesto”.