Despedidas

Não há poesia na hora da despedida.

Nessa hora decisiva, em que somos forçados a seguir percursos distintos, não há como fazer as palavras rimar nem como manter um ritmo harmonioso. Mas há um sentimento claro que impulsiona à mudança e à procura de uma maior identificação com quem somos ou ambicionamos ser.

E se raramente as despedidas são sonhados quando se inicia um qualquer relacionamento, seja ele pessoal ou profissional, já ninguém é ingénuo ao ponto de acreditar que os fins poderão ser definitivamente evitados. 

Tudo muda neste ecossistema que nos rodeia. E se não mudamos nós, mudam os outros ou mudam as circunstâncias que davam sentido a tudo o que, naquele particular momento e específico lugar, nos uniu.

Sim, é quase sempre mais confortável fazer de conta que tudo permanece imutável, até porque há em todo o ser humano um certo medo que está inerente à mudança. E desafiar esse medo não é tarefa a que qualquer um se predisponha. Requer coração forte e nervos de aço, exige confiança nas suas próprias capacidades mas também noção que há tanto que fugirá sempre ao nosso controlo.

Aprendi, por muita tentativa e tantos mais erros, a aceitar a mudança como forma de me desafiar e de continuar a crescer. Aprendi ainda que não podemos pedir aos outros para trilhar o caminho que é nosso.

Não, não sou profeta nem guru procurando atrair multidões incautas, até porque, como podem confirmar no que até aqui vos escrevi, não tenho receitas certas para a felicidade eterna nem prometo o que não posso dar.

Afinal quem pensa pela sua própria cabeça e procura promover que os outros façam o mesmo, não deve almejar a ter uma turba de seguidores acríticos que a tudo diz ámen. Mas não deve também recusar a companhia de quem partilha o mesmo desígnio.

Juntos seremos sempre pelejadores contra aqueles que procuram se agarrar desesperadamente ao poder, sacrificando no processo os mais básicos direitos dos seus cidadãos e, em particular, dos que têm a ousadia de revelar tudo o que são as suas práticas iníquas. E estas nossas fileiras serão sempre lideradas pelo exemplo, pela coragem e pela coerência.

Serei continuamente um admirador daqueles que, vivendo na ilha, têm o atrevimento de enfrentar os interesses instalados, mesmo sabendo que as consequências serão sempre bem reais e concretas.

E é por esses e, também pelos que – apesar de revoltados pelo tanto de errado com que são confrontados – têm demasiado a perder para ousar falar, que eu enquanto cidadão do mundo, livre por engenho e esforço próprio destes pequeninos poderes regionais, me comprometo a dizer o que alguns preferiam que permanecesse silenciado.

Como disse, não há poesia na hora da despedida. E, sendo esta uma despedida, recorro então à prosa para expressar o que inevitavelmente não posso deixar de dizer:

Primeiro confirmar que esta será a minha última crónica enquanto colunista do JM-Madeira e, em ato contínuo, agradecer ao jornal e à sua direção pela oportunidade para, durante cerca de ano e meio, poder partilhar as minhas palavras literárias com os seus leitores.

Infelizmente, durante este período de colaboração, algumas decisões editoriais permitiram-me confirmar que alguns dos valores e princípios que norteiam a minha forma de ser e de estar na vida ou não são igualmente partilhados ou, se são, não as consigo vislumbrar na prática e, assim sendo, entendi que não fazia mais sentido manter esta parceria. Eu só fico onde me sinto bem e onde perceba que a minha presença é desejada.

Aos muitos leitores que, enquanto o JM-Madeira o permitiu, foram deixando os seus likes e comentários na página online do jornal, fica o meu muito especial agradecimento. Afinal o que é um escritor sem leitores?

Mas, aos muitos que têm gosto em ler os meus trabalhos literários, posso felizmente assegurar que não há nada a temer. O amanhã está, afortunadamente, pleno de novas oportunidades para continuar a divulgar o meu trabalho e até de formas algo inesperados. Então, até já!

 

 

Nota da Direção:

O JM Madeira retribui o agradecimento pelos escritos de Alves dos Santos e deixa claro que, em nenhuma altura, bloqueou "likes e comentários". A ligeireza da insinuação, num artigo que nem sequer estava calendarizado pelo JM, tem tanto de surpreendente como de inexplicável: afinal, porque é que havíamos de nos preocupar especificamente com os seus "likes"?