Mitos sobre a depressão (III)

Mais uma semana a esclarecermos mitos sobre a depressão. Na próxima semana será o último. Quando nos referimos a depressão em linguagem corrente, na verdade estamos a referirmo-nos à Perturbação Depressiva Major. A depressão é uma doença.

Os mitos pendentes sobre a depressão são:

- É fácil de perceber quando alguém tem uma depressão

- Só existe um tipo de depressão

- Ansiedade e depressão são a mesma doença

- A depressão pode curar-se de um dia para o outro

- A medicação faz efeito rápido

- Posso parar a medicação logo que me sinta bem

- Todos os que tomam medicação, conseguimos perceber quem são. Estão drogados ou babados.

Nem sempre é fácil percebermos que uma pessoa tem uma depressão. Muitas pessoas sabem que os outros as vão ver de forma inferior e preferem não contar a ninguém o que sentem e fazem um enorme esforço para manter essa aparência. Estas pessoas demoram mais tempo a pedir ajuda, quando pedem estão num estado mais grave e isso demora também mais tempo a recuperar. Felizmente, há cada vez mais pessoas compreensivas e conhecedoras das doenças mentais e acabam por acolher de forma positiva quando um familiar ou amigo assume que precisa de ajuda.

A depressão não é sinal de fraqueza, pode atingir qualquer um, em qualquer estrato social. Não é algo que se resolva apenas com atividade, sobretudo nos estados moderados a graves. Manter uma atitude positiva é bom, mas não é remédio e pode no contexto errado, incentivar a pessoa a esconder as suas verdadeiras emoções.

Existem muitos tipos diferentes de depressão. A que mais pessoas conhecem é a Perturbação Depressiva Major. Tipicamente por episódios, sintomas intensos, incapacitantes, descritos no primeiro texto sobre os mitos. No segundo texto descrevi a Depressão Bipolar. Existem dois tipos de doença bipolar, tipo 1 e 2, sendo que no tipo 1 podem ou não existir, no tipo 2 são muito frequentes. Em ambos os tipos são muito incapacitantes e tendem a ser muito frequentes ao longo da vida. É muito importante reconhecer esta diferença, pois são precisos fármacos diferentes para tratar. O tratamento errado, nesta doença, pode agravar mais do que ajudar. Não esconda os diagnósticos anteriores quando procurar ajuda.

A Distimia ou Perturbação Depressiva Persistente é um tipo de depressão menos intenso que a primeira, mas com tendência a manter-se durante mais tempo. É o que vulgarmente as pessoas conhecem como depressão crónica. É menos incapacitante a curto-prazo, mas a longo-prazo é responsável por muita incapacidade ao longo da vida. Por vezes, junta-se esta doença com a P. Depressiva Major e chama-se de depressão dupla. Mais recentemente foi dado o reconhecimento à Perturbação Disfórica Pré-menstrual, muito incapacitante para a mulher, pela sua natureza cíclica e dificuldade de ajustar as suas variações à imposição social de mantermo-nos sempre iguais e previsíveis. Pode ainda ocorrer a depressão como secundária a outras doenças, como o enfarte, AVC, neoplasias, entre outras. Como secundária a medicação e ainda secundária a drogas, das quais, o consumo crónico de canabinoides é o mais importante.

Muito frequente é a Perturbação de Ajustamento, quando um problema intenso cria um estado depressivo agudo. Se o stressor desaparecer, a pessoa tende a regressar ao seu estado habitual no espaço de um mês. Se o stressor se mantiver ou o sofrimento causado por ele for intenso, pode transformar-se numa doença crónica e necessitar de tratamento.

A depressão pode ser ocasionalmente sintoma noutras doenças psiquiátricas ou em conjunto com outras doenças. É ainda frequente doentes ou famílias dizerem que sofrem de depressão, mas na verdade trata-se de outros diagnósticos como a Perturbação Obsessivo-Compulsiva, Perturbação de Stress Pós-traumático, Perturbação Esquizofrénica ou Esquizoafectiva, Perturbação do Espectro do Autismo, Perturbação da Personalidade, entre outras.

Para a semana, continuamos com os últimos mitos sobre a depressão.