(Des)encontros

Amanhã, ligo. Faço amanhã. Amanhã, começo. 

Adiamos assim a vida. E os encontros. E a possibilidade de dizermos o que é preciso, porque é preciso dizer as coisas: que se ama, que se admira, que se agradece.

E depois, depois, já é tarde, já não há tempo para ter tempo, já não se pode fazer, porque. Mia Couto, num dos últimos livros que li, O Mapeador de Ausências, escreve uma frase que resume os nossos fica-para-depois: “agora que já se pode entrar, já não há dentro”. É que o dentro acaba sem aviso prévio. Exatamente como a vida. Exatamente como nós. 

E o verão – agosto começa agora – é a oportunidade que o tempo nos dá para não adiarmos mais o amor, os encontros, os abraços, a presença, para não perdermos o tempo que nos vai faltar depois.

Não temos desculpa, meus amigos: não está a chover, não está frio, o trabalho abrandou, a pandemia vai-se controlando. O tempo, o nosso, é agora e não podemos deixar para mais tarde o que o nosso coração nos dita, porque pode não haver mais tarde.

Todos nós conhecemos a sensação do

- se eu soubesse.

Todos nós já nos sentamos à beira do espanto e não o vimos: nem a renda do mar, nem a genialidade, nem a elegância de uma gaivota na praia, nem o gesto delicado, nem o desenho do grito nas nuvens paradas. Todos nós já vivemos tantos agostos iguais, sem os habitarmos verdadeiramente, sem termos feito deles a fonte de vida para o resto do ano.

- Amanhã, ligo.

- Não, ligo agora. Talvez seja preciso oferecer a voz que trazemos nas mãos, ou o abraço que mora na saudade, ou. Talvez seja este o momento de enfrentar o que tem de ser enfrentado. Talvez seja o momento de dizer,

- vem, estou à tua espera.

Agosto (e este vagar nos afazeres da vida) permite-nos (ainda) ouvir os grilos que costuram o silêncio de tantas noites vazias e apreciar a beleza dos encontros – com alguém, com a natureza, connosco.

Não se esqueça de hoje. Hoje é que é o dia certo para ser feliz.