Andar e falar

Em meados de Julho, na Prainha de Água d’Alto, em São Miguel, Açores, reparei uma vez mais como em muitas ilhas vulcânicas – e na Madeira também – se perde pé muito rapidamente devido a uma descida abrupta das arribas em direcção ao Atlântico. A rebentação estava forte e, pedra vem pedra vai, não era muito fácil entrar nem sair daquele oceano de saudade. Nas ilhas, e não só, é preciso muito cuidado para não perder pé – ou estarmos cientes de que já não temos – e para não nos deixarmos enrolar nas pedras, na rebentação e em ambições desmesuradas.

A nossa estada nos Açores coincidiu com o festival Walk&Talk - Festival de Artes dos Açores da Associação Anda e Fala, cuja temática era In the first place (Em primeiro lugar). Logo no dia da chegada, andámos e falámos por algumas das galerias da capital açoriana, onde encontrámos uma galerista de Leiria – uma antiga professora que viera de Portugal Continental – para um arquipélago que quase só conhecia de nome, Nena, a galerista croata, que abria a sua casa, a sua arte e a da filha a quem quisesse por ali entrar. Mais abaixo, o açoriano Mário mostrava aguarelas, fotografia e cianotipia e da sua galeria-garagem via-se o que os Açores têm de melhor (e não é pouco).

No bonito Jardim António Borges, ao lado de árvores que já viram passar muitas gerações, como a árvore-da-borracha australiana, Edward George fazia-nos ouvir e falava da cultura do Soundsystem, que bebia dos movimentos dos direitos civis, e de como a música jamaicana era um elo a casa (como o braguinha tinha sido para os madeirenses, e outros portugueses, no Havai), a uma casa aberta (ou uma casa com fechaduras de madeira do Corvo, cuja tenacidade é a confiança). 

No âmbito do festival, conversou-se sobre lugares e geografias que não são os primeiros – não apenas geograficamente –, sobre a importância de não ser o primeiro, não querer ser, e de o assumir. Tiago Patatas explorou a memória da presença militar francesa nos Açores, sobretudo nas Flores, entre as décadas de 60 e 90 do século XX no âmbito do programa de testes de mísseis no Atlântico e nucleares no Pacífico. Ellie Ga – a artista que também dedicou a sua atenção à importância dos cagarros (cagarras, na Madeira) – referiu a necessidade de deixar de assumir sistematicamente o eu para podermos encontrar, de adoptar o silêncio para poder ouvir e de desaprender para poder trilhar caminho. Por exemplo, quantos de nós associam a calçada portuguesa com o trabalho forçado, com violações de direitos humanos a preto e branco, sob os nossos pés? Falou-nos também de Sayed, um documentário que realizou em 2015 em Alexandria, no Egipto, sobre o mergulhador homónimo que mostrava o mundo subaquático, e os milhares de pedras de farol, aos turistas. Sayed nunca se encontrara com os arqueólogos mas sabia muito mais do que eles porque mergulhava todos os dias e na sua cabeça possuía um verdadeiro mapa das ruínas. Na travessia entre as Flores – onde aprendi muito sobre os que vão, os que ficam e os que regressam – e o Corvo, num resplandecente dia, onde vimos grutas e golfinhos, pensei se aquela embarcação estivesse pejada de gente, sem documentos, sem coletes salva-vidas, e se o barco derivasse, em mar aberto, e se ninguém nos acudisse. Nesse dia, a Europa começaria ou acabaria aí, no seu ponto mais ocidental? O artista Diogo da Cruz talvez respondesse que o mar guarda tudo e que aí tudo é agora. Sejamos aqui e agora no mundo apercebendo-nos de que temos tanto verde a indicar-nos a esperança, como ouvimos do Sr. José que faz violas da terra na Costa do Lajedo, Flores, ao cantar Ilhas de Bruma.