De roldão

Infinitas vezes fui ao hospital com minha mãe, sempre entravada, à consulta de cardiologia. Tinha de ir de ambulância com ela, levar comigo uma grande dose de paciência para esperar ali o dia inteiro e só voltar a casa ao fim do dia. Muitas vezes vinguei-me a comer chocolates e minha mãe também gostava dessas loucuras doces.

Nesses dias de nada fazer, aprendi bem a observar as pessoas que iam chegando e saindo e que por ali pastavam como a triste de mim e de minha mãe. Havia uma senhora que chegava muito asseada, muito fresca e que se punha num canto a se pentear. Depois, metia o pente num saco de plástico dentro da carteira e dizia “Vou lavar as mãos”. Quando voltava, sentava-se e ia sempre compondo a saia em cima dos joelhos, sempre em silêncio. Havia outra senhora de idade que tinha sido criada do senhor Leacock e que tinha passado longas temporadas em Inglaterra ao serviço do patrão e da sua senhora, tratando da casa e olhando pelos filhos do casal, os meninos. Um dia, passou um médico neurologista e ela, que o conhecia, começou a chamar “Senhor Doutor! Senhor Doutor!” cheia de uma inocência tão pura. O médico olhou para trás, recuou os passos, ajoelhou-se ao pé dela e deu-lhe um abraço. Ambos de sorriso lindo! Eu intrometi-me e disse que se tivesse uma máquina, fotografava o momento. Todos rimos.  Observei também uma mãe e o seu filho lindo que vinha numa cadeira de rodas, porque uma brincadeira tonta entre amigos o tinha colado àquele assento para o resto da vida, completamente dependente. Belo jovem! Triste mãe! Triste futuro! Espantei-me com um senhor cego que comia pela mão da sua esposa como se fosse uma criança, porque não tinha braços. E eu queria saber os porquês, mas nada. Só mais tarde, no outro lado da ilha, descobri, num acaso, a verdade triste. A pesca nunca pode ser à bomba! Engraçada era uma velhinha que vinha numa cadeira de rodas e que não parava de apregoar “Quem quiser comprar eu vendo um amor que já foi meu, é bonito como um cravo, falso como um judeu!” De modo que de todas estas pessoas, eu imaginava a vida, as alegrias, as tristezas, a serenidade e os azedumes.

Este traquejo de observar pessoas e tirar ilações foi-se espalhando em mim e saltou para a sala de aula. No primeiro dia de aulas, todos os meus alunos são anjos, cheios de virtudes, prontos para trabalhar, desejosos de aprender. Triste engano! Problema meu! Mas com o Roldão foi diferente. Franzino, o mais novo da turma, criançola, remexido, muito branquinho, os olhos negros, muito vivos e irrequietos, intempestivo, respondão e refilão e sempre brincalhão. Vi logo que estava ali um bico de obra, mas com o tempo descobri uma inteligência apurada e fina. Quando lhe expliquei que “de roldão”, como aparece no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, significa “em trapalhada” e “em confusão”, ele disse logo que a sua mãe havia de gostar muito de saber, mas que o pai, não, pois tinha muito orgulho naquele sobrenome de família. Mais tarde, durante algumas aulas, lemos e analisámos “A ponte da Califórnia” de Teolinda Gersão. Este texto fala de uma mãe que abandona o cão para ir de férias com o filho. Pior! Diz ao filho que o cão ficaria num canil, porém deita-o da ponte abaixo.  No regresso das férias, a criança vem desejosa de rever o cão. A mãe finge que o cão fugiu do canil, mas confessa a uma amiga o seu verdadeiro fim. O miúdo ouve a conversa das duas, descobre a realidade. Nada o consola. Aqui que entra o Roldão, o menino intempestivo. Deita a cabeça em cima da mesa e começa a chorar. O que tens Roldão? Ele responde a soluçar “Com a crise, tivemos de mudar de casa. O cão teve de ficar para trás. Havia uma vizinha que lhe dava de comer. Nem sempre. O cão morreu. Eu não me perdoo”. E foi assim que eu descobri o coração de ouro do Roldão! E é assim que eu tenho esperança num mundo melhor, cheio de jovens de boa vontade, mesmo aqueles “bicos de obra”.

Deixo aqui palavras de minha mãe e de minhas tias: “Deus deitou os bichos no mundo para ver o coração das pessoas!”