As festas não têm de ser todas iguais

Já são poucos os traços distintivos entre cada uma das festas populares que se realizam na Madeira.

O tema da festa pouco ou nada interessa. O que dá pena. Da semana gastronómica à festa da anona, da festa da banana à da uva, da castanha, da lapa, ou do mar, o que mais ganha particular relevância é o cartaz musical. Aliás, quando, com pompa, se faz a apresentação de cada um desses certames, o que cria suspense é saber quais são os artistas convidados. Basta ver o frenesim de apoio, consternação ou acusação que percorre as redes sociais, a propósito do cartaz musical dessas festas. Na verdade, estes eventos temáticos têm sucumbido ao modelo do tradicional arraial popular, ele também já muito vergado à voracidade pimba do todo nacional. Tudo acaba em cerveja, ao som de muitos decibéis.  No fundo, seja em Machico ou no Porto Moniz, a festa é tendencialmente sempre a mesma.

E não teria que ser assim. A Semana Gastronómica de Machico fez história por ser diferente. Ganhou fama pela particularidade da sua organização e sobretudo pela qualidade gastronómica dos restaurantes participantes. Durante anos, as pessoas acorriam ao centro de Machico para momentos de convívio à volta de mesas fartas de genuínos sabores. A animação musical ficava a cargo de artistas locais e regionais e nem por isso a festa enfraquecia. Foi nessa altura que mais e melhores elogios mereceu, que mais foi acarinhada pela opinião pública e pela comunicação social.

Não há nada contra os concertos de artistas de renome na realização destes certames. São sinais dos tempos. Há sim um merecido reparo pelo facto de se estar a negligenciar os aspetos organizativos e a relevância do tema. Uma semana gastronómica ao ficar reduzida à festa do petisco, não vai ser salva pela eventual qualidade do cartaz musical. O que deveria estar a ser debatido no espaço público e nas redes sociais era a maior ou menor qualidade da gastronomia apresentada, a mínima competência que se deveria exigir para permitir a participação num certame desta natureza. Ou se faz algum sentido que um terço dos stands presentes sejam de associações locais que, por muito que se esforcem, não vão para além do tradicional “dentinho”.

O que deveríamos estar a discutir era se queremos ter gastronomia a sério, se a festa deve descambar num vulgar arraial, sem desprimor pelos arraiais, ou se deverá continuar, como agora, num misto das duas, com tendência acentuada para transformar a festa da gastronomia no arraial do petisco, onde os menus se repetem em quase todas as barracas.

As festas temáticas, mesmo que populares, mesmo com comes e bebes, mesmo com música e animação não têm que ter todas, tendencialmente, o mesmo figurino. Há lugar para a diversidade. O melhor exemplo é o Mercado Quinhentista, também em Machico, que vem acrescentando fama e sucesso, ano após ano, sem se vergar à banalidade de outros eventos. Sem ritmos modernos, sem pimba nem música brasileira. Sem entrar pela madrugada adentro. Sem deixar intoxicar a sua originalidade.

Talvez por não entrar na roda da política. Por ser um projeto escolar. O que esperamos que continue a ser.