Sinais de alerta

Ciclicamente as nossas ilhas passam por um certo desconforto que quase coloca em causa a ideia de segurança coletiva, o tal mito urbano que nos leva a acreditar que o cantinho do céu existe mesmo e que é aqui. Exatamente aqui, onde moramos e trabalhamos.

Felizmente os abalos a esse pensamento seguro apenas acontecem de vez em quando e isso basta para nos serenar. Basta-nos o consolo de acreditar que vai passar. Que o que parece ser uma onda de assaltos ou de pequena criminalidade vai ser coisa pouca. Vai passar. 

E tem passado, de facto.

Mas essa confiança, recomendável e necessária, não nos deve impedir de olhar para a realidade como ela é. Com momentos bons e outros que merecem ser encarados de frente, sem rodriguinhos nem paninhos quentes. A frio, mesmo.

Nas últimas semanas vivemos justamente um desses ciclos menos positivos. Em poucos dias assistimos a vários episódios que nos remetem para enredos de filmes de ação e violência. Houve de tudo. Três casos de pancadaria que acabaram à facada, duas jovens agredidas na rua, um homem atacado à paulada, alguns assaltos, uma dezena de jovens a trocar paus e pedras. A esses acrescenta-se agora o caso do grupo mascarado e temos um quadro geral que representa já alguma gravidade para uma região como a nossa.

Perante este panorama, restam essencialmente dois caminhos: planear novas formas de prevenção e intervenção ou seguir em frente, como se nada fosse.

Parece evidente que a segunda opção, embora mais fácil, é também a menos recomendada. Seguir em frente significa deixar andar na crença de que isto um dia vai melhorar. E isso pode ser feito atirando as culpas para os outros: os excessos da noite, os jovens, as famílias dos jovens, a falta de agentes da polícia, o Governo da República. E continua tudo igual.

Sendo assim, o mais avisado talvez seja enfrentar o problema e preparar formas de atalhar caminho na luta contra estes fenómenos que acontecem de vez em quando, mas não podem ser ignorados. Por ninguém. Muito menos pelas autoridades policiais que preferem justificar a situação com relatórios anuais e os efeitos do mediatismo.

Pode ser isso tudo e até pode ser só isso. Mesmo assim é preciso olhar a estes casos que afetam a pacatez e a segurança destas ilhas.

As algas e a Zona Franca

Esta semana fica também marcada por duas outras notícias que mereceram a atenção do Jornal: o projeto falhado das algas no Porto Santo e as queixas que estão a chegar a tribunais europeus a partir de empresas instaladas na Zona Franca da Madeira.

O projeto das algas representa o que de pior tem a ligeireza da administração pública. Num determinado tempo, alguém com poder de decisão política aceita um investimento em que acreditava - ou foi levado a acreditar. E as coisas foram acontecendo com dinheiro e mais dinheiro. Depois de falhar, os contribuintes pagam, pagam e pagam.

Quando o projeto está irremediavelmente perdido, acontece o inevitável: a administração pública é chamada a contas e o mais fácil é assumir todos os prejuízos e mais alguns. É o que acontece no Porto Santo, onde mais umas dezenas de funcionários acabam de ser integrados na Empresa de Eletricidade.

Percebe-se o papel do Governo, de acautelar os legítimos direitos dos trabalhadores. O que não se percebe é que, no fim do dia, sejam sempre os contribuintes – todos os contribuintes - a pagar a fatura.

Sobre a Zona Franca, a situação é bem mais intrincada. É mesmo muito complexa. Mexe com instâncias regionais, nacionais e europeias e não pode ser – como tem sido – uma simples arma de arremesso político.

Está na hora de um discurso mais assertivo e menos político. Menos conversa para atiçar a República e mais ideias concretas e soluções. Esta barafunda permanente contra Bruxelas e Lisboa já não aproveita a ninguém. Muito menos às 311 empresas chamadas a devolver dinheiro. Muito menos a quem lá trabalha e só quer alguma estabilidade.

Em suma: a violência, o negócio das algas e a Zona Franca são temas que merecem mais atenção e menos palpites.