O cruzamento das Courelas

Uma grande parte das 360 crónicas que escrevi até agora, incluindo esta, foi idealizada no cruzamento das Courelas, em Santo António. Existe ali um supermercado e um bar contíguo onde paro muitas vezes no decurso das viagens que faço para cima e para baixo, entre o esplendor da Ajuda e a ruína da minha herança nas zonas altas, quase todos os dias a marcar o ritmo da vida como o relógio marca o ritmo do tempo.

Tiquetaque quem sou eu?

Tiquetaque que horas são?

Tiquetaque quem és tu?

Tiquetaque para onde vou?

Paro lá para comprar qualquer coisa em falta, pois na vida falta sempre qualquer coisa, comida para os cães, milho estraçoado para as galinhas, uma lata de atum para mim, e depois sento-me a tomar um café ou uma cerveja diante da encosta e dos seus lombos carregados de casas – Barreira, Curral Velho, Jamboto, Pomar Miradouro, Lombo Jamboeiro e por aí adiante – de perna cruzada a saltar com os olhos de cá para lá, de lá para cá, e não avisto o mar – dali não se vê o mar, apenas o pensamento.

Vou sempre sozinho.

Antes, porém, mal reparava naquilo. Para dizer a verdade, nem sequer sabia da sua existência. Passava de carro sempre a abrir. Mas a certa altura, quando regressei de África, o meu pai ou a minha tia Alice ou o meu tio Humberto pediam-me de vez em quando para ir lá buscar qualquer coisa em falta – é como digo, falta sempre qualquer coisa na vida.

– Vai num instante ao Mateus comprar papo-secos.

Foi assim que conheci o espaço.

Às vezes ia com um deles e, feitas as compras, tomávamos um café ao balcão. Tenho saudades de os ver beber o café a escaldar num instante – é uma capacidade dos velhos que sempre me impressionou, não sei como conseguem!

Depois morreram todos e agora vou sozinho.

Fico um bocado a contemplar a cidade estampada na serra e de repente, não mais que de repente, o pensamento parece assumir o lugar do mar – o mar que não se avista – e forma ondas dentro de mim, estende-se até ao infinito, vai para longe e regressa em vaga, traz o passado alado e rebenta no chão salgado – agora sou praia, sou rochedo, sou ilha.

E eis que surge a primeira frase para a próxima crónica.

Esta, por exemplo: Há um jogo que disputo todos os dias com Deus e ele vence-me sempre com jogadas subtis. (É boa, não vos parece?) Respiro fundo e continuo: Não sei como se chama o jogo, mas fico sempre surpreendido com a subtileza de Deus, porque põe em evidência a minha desonestidade e mau caráter e – pior ainda – a minha conversa fiada. Como agora, já se vê.

Seja como for, devo dizer que é por causa deste jogo que eu ainda gosto muito de Deus. Não acredito de todo nele, confesso, mas gosto imenso da sua inexistência.

A cada jogada minha, ele diz-me assim:

– Duarte, não te armes em esperto comigo. Limita-te a ser natural.

Eu fico estuporado e começo a rezondá-lo e a dizer coisas sem sentido:

– Não pedi a ninguém para me trazer ao mundo e não vou cobrar nada a ninguém por estar no mundo.

Às vezes também praguejo e digo coisas horríveis no cruzamento das Courelas, onde nasceu uma grande parte das minhas crónicas, incluindo esta, mas a agitação, a grande agitação do mar que não se vê, acaba sempre por amainar e aplanar, suavemente, suavemente, até se perder e desaparecer do fim ao infinito…