Portugal aos trambolhões

Aproximamo-nos a passos largos da época tão esperada por todos, que é o Verão. E o mês de Junho é perfeito para fazer a introdução do que nos espera, com os seus feriados e festas populares, o cheiro da sardinha assada, o sabor a mar, o calor que cola as roupas ao corpo suado, a música que dança entre conversas soltas, as gargalhadas e boa disposição, num encontro de amigos e família. Merecemos essa alegria que sentimos em pequenos grandes momentos de felicidade. Que venham mais.

O mês de Junho trouxe-nos também a celebração do Dia de Portugal e a alegria e orgulho de ser português. Em Londres, onde vivo, assisti à celebração, onde estiveram presentes o nosso Presidente da República, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa e o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. João Cravinho. Com uma audiência repleta de grandes nomes e talentos da emigração portuguesa a residir em Londres, foi com grande espanto que ouvi o Sr. Ministro a lançar o desafio aos jovens portugueses residentes no Reino Unido, para que voltem para Portugal. Voltar para Portugal agora, quando o país anda aos trambolhões e sem rumo?

Por diversas vezes tenho assistido em Londres, políticos portugueses em discursos frívolos de um Portugal que desconheço, cheio de facilidades e oportunidades que não existem, discursando uma retórica incoerente de um país de fantasia. Compreendo que idealizar um Portugal de oportunidades, organizado, eficiente e produtivo é o sonho de qualquer politico português, é o sonho de qualquer português. Mas não é essa a realidade que temos e não é essa a realidade que os portugueses residentes vivem em Portugal.

Portugal vive num rodopio de problemas estruturais que danificam o bem-estar dos dias de hoje e principalmente das gerações vindouras. Falta a coragem política para pôr um fim nas inúmeras e constantes falhas, que dia após dia assistimos em Portugal, nos mais diversos sectores de atividade. Falta a visão de governar a longo prazo, por forma a criar estruturas sólidas para um Portugal do futuro e não um Portugal a 4 anos, pensando nos votos e criando uma política de empobrecimento que irá gerar brevemente, novas ondas de emigração por esse mundo fora. Meus senhores, ninguém gosta de sair do seu país por obrigação.

O caos no aeroporto de Lisboa, com as infindáveis filas na zona de controlo de passaporte, para os passageiros que entram (e desesperam) em Portugal, gerou uma onda de consternação, com a responsabilidade a girar entre o ministro da Administração Interna, Dr. José Luís Carneiro, que em tom grave, aponta o dedo aos responsáveis do SEF e exige a tomada de responsabilidade por parte destes pelo sucedido. O SEF por sua vez, culpa a limitação física do aeroporto. Voltamos à velha questão da necessidade de um novo aeroporto, que já se coloca há 50 anos – será possível. De referir que o aeroporto de Beja, que fica localizado a meio caminho entre Lisboa e o Algarve, abriu portas em 2011, após obras que custaram avultosos milhões aos bolsos dos portugueses, está sem operação de voos e serve apenas de parque de estacionamento de aeronaves. Enfim.

O serviço nacional de saúde que dia após dia vê a qualidade do serviço em determinadas áreas deteriorar-se de forma acentuada, nomeadamente o serviço de saúde materna obstétrica, onde já começa a afetar a taxa de mortalidade materna e a mortalidade infantil. Quando os nossos bebés não conseguem nascer em segurança e tranquilidade, quem assume esta grave falha e assume responsabilidade? A resposta é, absolutamente ninguém. A senhora ministra da Saúde, Dra Marta Temido, agarrada sofregamente ao seu terceiro mandato, não arreda pé, numa ladainha pobre de soluções que não consegue encontrar.

E são inúmeras as questões que preocupam os portugueses, em que ninguém apresenta uma solução ou assume a responsabilidade, desde o aumento do custo de vida a olhos vistos, onde o magro rendimento português tem que esticar de forma mágica para todos os aumentos que enfrentam; a questão dos incêndios em Pedrógão Grande, que vitimou 66 pessoas de forma cruel, sem que responsabilidades tenham sido assumidas, nem resposta aos prometidos, já lá vão 5 anos; as quezílias entre o poder central e a Madeira, onde os deputados eleitos se debatem na Assembleia da República pela coerência, transparência e efetividade dos subsídios de mobilidade, como direito que assiste a cada ilhéu.

Não senhor ministro, esta não é a hora dos jovens portugueses não residentes, voltarem para Portugal, mas é hora para uma grande mudança política, para bem dos portugueses e para bem de Portugal.