O sintoma pela doença

 Parece ter-se descoberto, de repente, que o Serviço Nacional de Saúde está doente. Subitamente, por causa de um feriado, parece ter caído a esfarrapada cortina atrás da qual poucos pareciam querer deitar o olho. Os governantes, temendo rachas no verniz da narrativa com que adormecem o povo, empenharam-se em culpar a conjuntura. Há problemas estruturais, admitem, mas a culpa disto é das férias e folgas dos malvados dos médicos, como se as férias e as folgas do pessoal, em qualquer empresa, fosse algo de conjuntural e não parte daquilo que é estrutural na vida da empresa. Como não acredito que o padrão de folgas e feriados deste ano tenha variado assim tanto nos últimos dez anos, o único factor conjuntural passível de ter em conta, aqui, é uma eventual subida das baixas médicas. Terá esta sido assim tão dramática, se sequer relevante?

 Entretanto, críticos de várias estirpes, dos remunerados aos voluntariosos, passando pelos interessados, acorreram a acusar tudo e todos, menos os responsáveis políticos. Desde uma suposta concorrência desleal sofrida pelo SNS (culpar os privados é sempre chique), à malvadez e insensível egoísmo dos médicos, são todos culpados menos a incompetência dos governantes, o centralismo a que a ideologia obriga, ou a burocracia tão distante quanto pesada.
            Confesso-me surpreso por descobrir que o SNS, instituição estatal protegida por leis e alimentada a impostos, sofre concorrência desleal por parte de instituições privadas, que dependem da aprovação do cliente para sobreviver. Parece que, para alguns responsáveis da área, oferecer melhores condições de trabalho é desleal. Imagino que se um concorrente do seu empregador lhes oferecer melhores condições, vão a correr fazer queixa à Autoridade da Concorrência.
            Também me surpreendeu ficar a saber que os médicos são, ou deviam ser, seres sobre-humanos, para quem férias, folgas e demais luxos, como o de ter uma vida pessoal e familiar, são meros pormenores dispensáveis, por via da vida de beatificação que escolheram. Nem o médico é um santo, como tem as mesmas necessidades básicas dos seres humanos que os criticam, como a de se alimentar, de descansar e de ter uma vida além da profissão. É perfeitamente legítimo que um médico tenha férias, que aproveite pontes, folgas e santos populares; como qualquer outra pessoa. Também é legítimo que um médico prefira trabalhar para e por si, que prefira mudar-se para um patrão que não o trate como carne para canhão, ou que escolha não abdicar do seu tempo em família.

            Quando a ideologia vigente tem sido, e é-o hoje com maior fúria, manter o controlo centralizado das operações, no estado, pelo estado e nunca fora do estado, longe da percepção das necessidades locais e específicas da comunidade, a gestão d os hospitais públicos esbarra em paredes atrás de paredes de burocracia. Os gestores hospitalares, impedidos de planear além de um orçamento anual, de ajustar as equipas médicas à realidade local, ou as condições que lhes oferecem (para atrair pessoal ou manter o existente contente), escolhem outras formas de manter flexibilidade sem ter de enfrentar a inflexível burocracia central. Daqui surgem os “tarefeiros”, absolutamente necessários para situações de necessidade pontuais, hoje usados como subterfúgio para aumento de efectivos.

            Em vez de culpar o indivíduo que reage aos incentivos e entraves que a burocracia lhe coloca à frente, talvez devêssemos perguntar-nos o quanto daquela burocracia é absolutamente necessário.