A máquina de lavar

Aqui há dias, fui passear com umas amigas e, conversa puxa conversa, começámos, sem querer, a falar na vida e nas nossas ignorâncias! Também é bom se falar disso! E foi assim que fomos bater à máquina de lavar! Lavar roupa, diga-se. E foi assim que eu me lembrei do dia da minha infância em que vi a máquina de lavar! E é assim que aqui vai a história que eu lhes contei.

Minha mãe lavava a roupa todas as manhãs joelhada no poço de lavar que tinha um bom lavadouro áspero e largo. O detergente era sabão azul e, às vezes, sabão clarim para deitar um cheirinho. A roupa clara era a primeira a ser lavada para ir coarar ao sol no coarador, que era um poio com ervinha fresca e que só servia para esse fim. No fim de tudo, esfregava-se outra vez e passava-se por água fresca a roupa que tinha estado a coarar ao sol. Também às vezes, na roupa branca, era aplicado anil na própria água que punha a roupa “avoando” de fresca.  Eu não conhecia outra máquina de lavar roupa e gostava do barulho da água e da folia das roupas a serem viradas dum lado e do outro dentro do poço, torcidas e deitadas ao sol. Tudo frescura nas mãos e ao redor e uma sensação de leveza na alma.  Difícil, difícil, era a farda de meu pai, cheia de óleo dos carros. Era preciso deitar água fervendo em cima e deixar de molho com sabão Omo durante a noite inteira.

Nesse tempo, ainda havia quem lavasse a roupa na ribeira e, às vezes, irritada e para nos irritar, a senhora Maria do Ó, que já era bem velhinha e já não ia lavar roupa à ribeira, com o seu cocó no alto da cabeça, quando a gente escarreirava em cima da rocha, logo atrás da casa dela, mandava-nos sossegar e dizia para irmos para a ribeira lavar roupa. E nós ríamos, ríamos. Nenhuma das minhas tias lavava roupa na ribeira. Todas tinham já o poço de lavar no terreiro atrás da casa, na sombra das paredes e das avencas.  Mas lembro-me de facto de ver algumas mulheres com as banheiras à cabeça a saírem dos pinheiros do lado da ribeira que separa o nosso sítio do Caminho do Terço, com os filhos a pular e a saltar ao seu lado.

Quando chegou a novidade de que em casa da tia Elisa da ponte havia uma máquina de lavar roupa que o primo Raul tinha comprado - acho eu que foi ele – a gente quis ir ver o que era aquilo. Eu imaginava que seria uma geringonça que se poria dentro do poço de lavar e com umas mãos de luvas de palhaço lavaria a roupa. Para mim, tinha de haver mãos. Lavar roupa sem haver mãos não há val. E lá fomos em bando, descendo das Pedras até à ponte ao pé da Quinta da Fajã.

Ao chegar, chamámos “tia Elisa” e “prima Idalina” e elas vieram de dentro com o Toi, o cão que sabia abrir portas, atrás delas a correr! E que alegria! A tia Elisa e a prima Idalina faziam umas broas muito boas como eu nunca provei em sítio nenhum. E claro que a gente já ia com o bico doce à espera das broas. Fomos pelo terreiro cheio de flores e entrámos no quartinho onde estava a máquina que já estava a trabalhar e eu fiquei com pena de não termos chegado mais cedo para eu ver todo o processo desde o início até ao fim! Então? Se era para ver a máquina, era para ver tudo da máquina! Achei aquilo tudo muito esquisito. A roupa a rodar lá dentro para cá e para lá toda espremida. Não gostei. E enquanto estivemos lá, eu não tirei os olhos da máquina desconfiada e queria saber donde vinha a água que estava lá dentro e para onde ia e quantas horas levava aquilo a rodar dum lado para outro sem jeito nenhum. A prima Idalina explicou que enquanto a máquina rodava a lavar a roupa, ela podia fazer outras coisas e que aquilo era muito bom! Sim, podia ser, mas não era divertido. Como pode um caixote daqueles lavar bem lavada uma roupa que não vai a coarar?

Agora até já há máquinas que só faltam falar. Cumprimentam e informam de tudo o que é preciso, até mesmo de que elas próprias precisam de limpeza por causa dos resíduos do calcário ou por isto ou por aquilo. Mas eu tenho saudades da roupa lavada no poço a cheirar a sabão azul e a sabão clarim. E se eu tenho saudades, alguma razão hei de ter!