Os velhos da minha infância

Todos aqueles cujas idades pululam entre os quarentas e os cinquentas se lembram dos velhos da sua infância. Poucos se arriscarão a fazer contas de há quantos anos partiram ou que idade teriam se por cá ainda estivessem.

A minha infância, como qualquer outra, também teve os seus velhos e também aqueles que aos nossos olhos, já filiavam o clube da geriatria, mas, que a bom ver, teriam as nossas idades agora.

Zé Pinheiro. O nosso vizinho do lado, já por cá referido algumas vezes. Vivia sozinho, cultivava a terra em redor de casa e tinha uma particularidade deliciosa: era fanhoso, daquela boca só conseguia entender “ua tadi” (boa tarde). A minha mãe entabulava conversas inteiras com ele e sou obrigada a confessar que, por vezes, me sentia de lado, por entre um dialeto só entendido entre ambos, como se falassem em código. Agora sou levada a acreditar que, se calhar, a minha mãe também não percebia metade do que o homem dizia, na verdade as conversas eram duma profundidade que ia do estado do tempo, à temperatura, ao estar de dia ou de noite. Suspeito…

Senhor Marcelino. Outro dos senhores que sobrevivera à mulher e vivia sozinho. Sozinho como quem diz, com o seu cão. Foi dos primeiros a partir, deixando o Bobi para trás, de bolsa vazia. Bobi companhia de todas as horas de Marcelino tinha uma coleira muito especial, com uma bolsa de couro ao pescoço onde o seu dono introduzia uma carcaça, ou papo-seco, ou pão da venda, que seria a sua matina. Todos os dias Bobi descia o caminho do Pinheiro a alta velocidade com a bolsa recheada a badalar ao pescoço seguido de Marcelino, vagaroso, a pontear a sua bengala. Ao entrar na vereda da sua casa parava e esperava qual sentinela, de papo-seco ao pescoço. Ali soube o que significava lealdade canina, que se saiba, Bobi nunca se deixou trair pelos aromas do pão fresco ali mesmo, por baixo do focinho.

Manuel da Limeira. O homem acompanhado do som de arrasto. Manuel da Limeira andava sempre descalço, a sua sola tinha pelo menos um centímetro de calo que eu bem sei, pois via-o quase todos os dias sentada na soleira da porta a passar, quase ao nível dos meus olhos ainda desprovidos de miopia ou astigmatismo. Nunca vi aqueles pés calçados, mas, a sola, ah, aquela sola além de impermeável, antiderrapante e todo-o-terreno, era capaz de dar a tração óptima aos troncos, paus e palhas que arrastava às costas. Sempre apressado, como que a dar balanço à carga cumprimentava com um: “boa”, que completava já uns bons metros à frente: “tarde”. Sempre descalço, excepto quando lhe vestiram a última indumentária. Fosse por ele, ia descalço.

Senhora Agostinha. Minha querida Senhora Agostinha, viveu a vida toda como se a cumprir um voto de pobreza, na maior das frugalidades, tão espartana que quem a visse não adivinhava a fortuna que acabaria por deixar. Senhora Agostinha tinha o triste hábito de apanhar lagartixas num balde com água a ferver, as únicas ocasiões em que me pôs a correr de lá para fora aos gritos. As tardes moles no balcão da sua casa, de unhas espessas ao léu e olhar feliz pela nossa presença, foram o mais próximo que tive da experiência de ter avó.

Foram os velhos da nossa infância. Ajudaram a criar esta geração que, com pressa, se vai tornando, agora, avó. Habitam a nossa memória como monumentos à vida, vivos porque cravados na existência efémera da vida que nos foge por entre os dedos, sem darmos por isso.